Temos, segundo o censo de hoje, 39 pacientes sob nosso cuidado. Tal quantia representa 15% do número total de doentes na base. Ainda assim, o número de tragédias familiares é incontável.
Ao adentrar uma das barracas durante a visita da manhã, deparei-me com um jovenzinho franzino e sorridente de 15 anos. Já tinha sido alertada de que ele havia ficado soterrado por dias, juntamente de sua mãe e pai. Ambos assistiram a lenta morte da mãe sob os escombros e, quando conseguiram finalmente escapar, carregaram o cadáver da mesma por três dias a esmo pelas ruas destruídas, em busca de um local digno para enterrá-la. Sendo incapazes de encontrar um, foram obrigados a deixá-la na rua e seguir adiante, na luta pela sobrevivência.
Quando lhe perguntei como se sentia, com sua fratura de fêmur e punho, ele me respondeu “Deus quis a minha vida assim e estou muito grato por ter tido a chance de continuar a vivê-la. Estou bem”. E, ao sair daquela tenda absolutamente quente, escutei pai e filho entoando uma prece cantada com empolgação.
Foi nesse momento, no meio de toda essa poeira, dor, mutilações e miséria, que me impressionei ao constatar a presença e a importância que a música tem na vida desse povo. O som das melodias é constante: seja nas barracas, com famílias (de sangue ou adquiridas mesmo) que passam o tempo e se distraem entoando músicas, na “lavanderia”, com as mulheres que animam o próprio trabalho cantando em conjunto, nas preces em uníssono, nos radinhos a pilha e nas reuniões ao fim da tarde, em que sempre é ligado um amplificador e um microfone na região das tendas dos doentes para alguém cantar e tocar teclado, enquanto todos dançam, com ou sem muletas, com grande entusiasmo. Muito mais que vitaminas e analgésicos, chego à conclusão de que as notas musicais são o adjuvante mais potente e eficaz para os tratamentos realizados por aqui.
É inevitável lembrar da frase de Aldous Huxley, que diz que “depois do silêncio, a música é o que chega mais próximo de expressar o inexpressável”. No meu segundo dia no Haiti, começo a duvidar que tenha sido ele, e não um haitiano, quem disse isso.
Mariana Perroni
02/03/2010 09:23
Fábio Racy
É Mari, a realidade deles não é fácil! O importante é estar aí fazendo o seu melhor... Não importa o tempo... se vai demorar muito para voltar ou não. Aqui, está tudo igual. A diferença é que estivemos aí! Vai fundo no que fizer e não deixe de viver cada momento intensamente. Palavras de quem saiu dai há 2 dias, e que já sente falta. Fábio
01/03/2010 17:45
Mariana
Mari, cada depoimento de vocês fico arrepiada, empolgada e feliz pela experiência de vocês. Quando você relata que as notas musicais são o adjuvante mais potende, não tenho dúvidas que você está coberta de razão, pois fiz um trabalho com a música relacionada a dor e os resultados que eu tive foram fantásticos. A música traz conforto, esperança, alívio e alegrias......................Temos que seguir esse exemplo. Beijos a todos da equipe!! Muita Sorte ai!
Enf Mariana Franco - UTI
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