Chegamos ao camping no dia 26, final da manhã. O clima aqui realmente é cruel. Árido, muita poeira, apesar da temporada de chuvas. Parece-me que a temperatura está mais amena nos últimos dias, ainda não choveu e venta bastante, o que ajuda e deixa tudo palidamente cinza de poeira.
A palavra que melhor define o que tenho visto aqui, na minha opinião, é desigualdade. Na fronteira entre a República Dominicana e o Haiti, há uma fila interminável de caminhões de suprimentos doados e caminhonetes luxuosas levando voluntários. Imediatamente após a fronteira, há um mercado, se assim pode-se defini-lo, que vende tudo que se pode imaginar. Aparentemente a mercadoria é fruto de doações feitas ao País, onde tudo se torna moeda de troca.
No acampamento não é diferente. Os pacientes ficam em barracas – até 3 em cada – junto com seus familiares. Das 11h às 15h é praticamente impossível ficar lá, já que a temperatura chega a passar de 50 graus. Em contrapartida, temos 5 times no camp. Cada um com seus pacientes, que têm suas informações interligadas em rede por um iPhone. Cada equipe tem o seu e atualizamos os dados diariamente. A farmácia e o depósito também são controlados por computadores (Macs de 21 polegadas). Temos 4 ou 5 linhas wireless no camp. Nunca imaginei que estaria em uma barraca no Haiti com rede wi-fi e prontuário eletrônico no iPhone.
Deixo claro que não acho que essa tecnologia empregada seja desnecessária, muito pelo contrário, ela facilita muito o trabalho aqui, em todos os sentidos e, sinceramente, não tenho a ilusão de que o dinheiro gasto com esse material pudesse ser revertido em melhorias para esta população. Não, este não é o problema. O dinheiro pode até chegar, e chega, mas o problema social é muito maior do que o que enxergamos na superfície.
Aqui no acampamento somos estritamente proibidos de dar qualquer coisa aos pacientes, nem mesmo água mineral, nem às crianças. No início estranhamos, mas depois percebemos que qualquer ajuda que se dê, deve ser igualitária. Qualquer benefício tem que se estender a todos os pacientes do camping. Consigo imaginar como isto acontece em proporções muuuito maiores em todo o País como no camp.
Uma sociedade começa enterrando recursos. Saneamento básico, educação, justiça social. Coisas que nem mil Iphones e Macs poderiam comprar. Este é o principal impasse para diminuirmos tamanho abismo.
Enquanto isso continuo tomando banho de caneca, com cuidado para não molhar o iPhone.
Dra. Tais
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