Bem-estar e Qualidade de Vida

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O que os médicos pensam sobre a sua própria morte?

Especialistas do Einstein comentam sobre o que aprendem em seus consultórios

Habituados a lidar com situações das mais variadas em seus consultórios, desde as notícias mais felizes até as mais assustadoras, o será que os médicos pensam sobre a sua própria morte?

Como a relação com a vida e a morte dos seus pacientes modifica a sua forma de ver as coisas e de que forma isto transforma o seu dia a dia?

Convidamos alguns profissionais do Einstein para responder a essas e outras perguntas e tentar nos fazer entender como funciona a sua visão sobre o assunto.

Dr. Alexandre Holthausen - Cardiologista

Depois de anos de profissão, como o senhor enxerga a morte?

Após 15 anos de UTI e cardiologia já testemunhei um número significativo de mortes, esperadas, inesperadas, após casos “arrastados” ou de “instalação” abrupta. Hoje acho que morrer não é apenas natural, mas essencial – não temos corpo (e talvez mente) para viver indefinidamente. Claro que isso faz mais “sentido” no caso de, por exemplo, pessoas muito velhas (o próprio conceito de velhice muda todo dia) e/ou muito doentes. A morte “sem sentido”, em crianças, jovens, gente saudável, sempre causa comoção e impacto. Por fim, vejo a morte de pessoas diferentes de formas diferentes, dependendo não apenas das condições físicas do paciente, mas de suas crenças, de sua família, aspectos culturais etc.

A morte de um paciente é um dos maiores medos dos médicos?

Médicos não gostam de errar ou sentir impotência, não gostam de ser vistos como falhos. Acho que o medo não é da morte em si, mas de estar associado a mortes evitáveis. Refiro-me a mortes de pacientes. Quanto à própria morte de um médico, tenho visto reações diferentes, de diferentes médicos. Não posso dizer que, como tendência, sejam diferentes do conjunto de reações de não médicos.

Como é que o senhor pensa na sua própria morte?

Penso com relativa frequência, por razões variadas. Não posso dizer que me incomode. Claro que gostaria de escolher como morrer, mas isso está mais associado a evitar sofrimentos e privações. Embora, no caso de cada um de meus pacientes, as decisões ligadas ao tema caibam exclusivamente a eles (tento não influenciá-los com minha opiniões não médicas), pessoalmente não acredito em viver a qualquer custo. Tenho um conjunto de atitudes saudáveis, não fumo, sou magro, faço exercícios físicos, como razoavelmente bem. Curiosamente o câncer que eu tive não tem muitas causas ou fatores de risco conhecidos. Difícil prevenção!

O senhor já enfrentou um câncer. Como isto alterou a sua visão, como médico, de vida versus morte?

Não mudou muito em relação à visão sobre a morte. Talvez tenha afetado mais na forma com que trato meus pacientes e seus familiares. Acho que me tornei mais ciente de espaços, limites, direito a decisões. É importante mencionar que minhas impressões sobre a morte são contextuais – não vejo minha morte como fato iminente (e não vi quando estava em quimioterapia). Logo, minhas opiniões e reações estão relacionadas a algo que ainda não tem cara, não é concreto. Não sei o que vou achar quando estiver morrendo, se tiver tempo e consciência para achar alguma coisa.

Dr. Nelson Hamerschlak – hematologista e coordenador do Programa de Oncologia do Einstein

Com tantos anos na área oncológica, como o senhor enxerga a morte?

Para o médico, a morte é de difícil aceitação de uma forma geral. Nós fomos treinados para curar.

A morte de um paciente é um dos maiores medos dos médicos?

Pessoalmente, aceito melhor quando a morte ocorre pela agressividade de uma doença e me sinto inconformado quando ocorre em decorrência de um tratamento.

Como é que o senhor pensa na sua própria morte?

Interessante, nunca pensei seriamente na morte acontecendo comigo. Creio que só não quero me arrepender de ter deixado de fazer algo que quisesse. Não vejo com medo, mas adoro viver.

O que é mais tocante para o senhor quando morre um paciente?

O sofrimento da família.

Dra. Ana Cláudia Arantes – geriatra do Einstein

Depois de anos na área de cuidados paliativos, como a senhora enxerga a morte?

Para mim, a morte faz parte do dia a dia. Vejo sua realidade todos os dias por causa do meu trabalho. Vejo que é uma verdadeira catalisadora de ações importantes, de consciência de prioridades, especialmente na demonstração de afetos. Faz parte da vida, mas acelera muito a vontade de viver plenamente para poder sair pela porta da frente.

A morte de um paciente é um dos maiores medos dos médicos?

A morte de um paciente infelizmente nos traz a consciência avassaladora, como médicos e humanos, de que não somos deuses. Não temos tanto poder assim sobre a vida do outro como julgamos ter. O maior medo do médico é de ter feito ou deixado de fazer alguma coisa que possa ter sido a causa da morte do paciente. Mais do que o medo de processos ou ameaças, fica o pavor de ter sido responsável pela morte de uma pessoa que estava entregue aos seus cuidados. Pior ainda é a dor do médico que se sente super poderoso e sabe que fez absolutamente tudo o que sabia ser possível e ainda assim o paciente morreu. Nessas horas pode vir uma sensação de fracasso, impotência, incapacidade. Mas mesmo quando o médico tem ciência dos limites da medicina, ainda assim sofremos, pois criamos um vínculo forte com as pessoas que cuidamos, especialmente com aquelas que cuidamos durante muito tempo. E elas se vão, mas fica a falta, a dor da perda como qualquer outra relação importante na vida. Médico também tem luto, mas nunca tem a chance de vivenciar ou expressar esse luto. É um luto não reconhecido pela sociedade. Se um paciente meu morre, fico triste, mas não tenho o direito de desmarcar os pacientes que serão atendidos a seguir ou faltar no trabalho porque quero ir ao velório ou ao sepultamento. Fica uma dor oca, vazia, sem sentido. Uma dor que não pode ser cuidada ou ouvida, pois não há espaço na agenda, no seu dia, na vida. Se você expressa pode correr o risco de ouvir que não deve se envolver, ou até ser julgado como um médico fraco ou imaturo.

Como é que a senhora pensa a sua própria morte?

Penso que ela pode acontecer a qualquer momento. Não sei se vai ser uma boa morte ou uma morte difícil. Não dá pra saber, prever ou prevenir. Já fiz minhas diretivas antecipadas de vida, já tenho tudo descrito como vou querer ser cuidada caso tenha alguma doença que não permita que eu expresse minha vontade. Revejo este documento todo ano e quase sempre mudo alguma coisa, pois a experiência e o tempo podem sim mudar as opiniões aparentemente mais imutáveis.

Por causa dessa consciência, não passa um dia em que eu não me esforce em expressar afeto e gratidão a quem me importa. Filhos, amigos, namorado. E sempre tento fazer algo para mim no dia, nem que seja ler poesia ou ouvir uma música boa. Até mesmo nos dias tristes, tento encontrar uma brecha para esses cuidados. Sei que não dá para ser feliz tão constantemente, mas deito minha cabeça leve todo santo dia com aquela doce certeza de ter feito o melhor que eu podia com meu tempo, com minha vida.

Como a morte dos teus pacientes tem alterado a sua visão, como médica, de vida versus morte?

A morte de meus pacientes tem me ensinado muita coisa e tem confirmado outras que eu já sabia. Em primeiro lugar me ensina que cada ser humano é absolutamente único, com sua história de vida, seus medos, suas alegrias, seus valores. O que vale para mim ou para você tem um significado totalmente diferente para o outro. Aliviando os sintomas físicos, posso ouvir as necessidades e desejos de outras dimensões desse ser humano no fim da vida e posso ajudá-lo, junto com a equipe que trabalha comigo, a por em prática a vontade do paciente e de sua família.

O que mudou desde que começou nos cuidados paliativos?

Agora estou mais perto da minha morte e passei pela morte de pessoas da minha família. E sinto na pele, na alma, o que é a dor de perder alguém que se ama. Sinto na pele a possibilidade mais real de que isso também vai acontecer comigo, e pensar no sofrimento das pessoas que vou deixar é, muitas vezes, o meu maior sofrimento. Só que agora eu sei que preparar alguém para nossa partida é estreitar ainda mais o amor que nos une a essas pessoas. Pois é exatamente essa força de amor que vai poder ampará-las e dar sentido a nossa ausência na vida delas.

Dr. Mauro Moore Madureira – psiquiatra

Depois de anos de atendimento clínico, como o senhor enxerga a morte?

Na minha especialidade, psiquiatria e psicoterapia, não há muitas mortes reais, por doenças físicas. Existe a morte, ou a 'não-vida', do paciente gravemente psicótico que, dividido, perde a unidade do seu ser. Muito triste para quem vê, mesmo para quem tenta tratar, e não tão triste para o paciente, que não tem clara noção daquilo que perdeu. Prefiro a área de psicoterapia, em que o que deve ser tratado é a vinculação a padrões-patrões que pré-definem as opiniões, as avaliações e, portanto, também as atitudes. O mais saudável é o colocar-se with people, sem parti-pris, sem pré-conceitos, sem pré-juizos, sem pré-julgamentos. Fácil de falar, duro de conseguir.

A morte de um paciente é um dos maiores medos dos médicos?

O medo do adulto ético é baseado na possibilidade de errar, por incúria ou incompetência. O médico tem a lei “primum, non noscere" - em primeiro lugar, não lesar, ou prejudicar. A morte inevitável, que não se pode hoje evitar, por falta de clareza, conhecimento ou recursos, é aceita com pesar, mas sem a sensação de fracasso e culpa. A morte que parece que poderia ter sido evitada, esta sim, é letal, o médico também morre um pouco. É provável que a criticada 'frieza' dos médicos seja mecanismo compensador para evitar a repetição dessa dor.

Como é que o senhor pensa na sua própria morte?

Brinco que, na remota hipótese de eu morrer, não tem problema. O 'e' vai para um lado, o 'u' vai para outro. Ninguém ficou, fica ou ficará sabendo da própria morte. Volta-se para o lhufas, que é de onde viemos. A idéia de morrer pode ser mais aceitável quando a vida está muito chata e não se veem possibilidades reais de melhorar. Há dois fatores básicos: a perda do próprio prazer de viver e a sensação de ficar completamente só, 'morto para o resto da vida'. Quem acredita na morte, fica mais tranquilo, pois sabe que ele nunca ficará morto. Uma ideia que causa muito sofrimento em quem tem dependentes pode ser 'o sair com a missão incompleta'. Vem a noção de falha, de fracasso. Vergonha! E com ela, a aflição por não poder mais tentar.

Como a relação dos seus pacientes com a morte influencia a tua relação com a morte?

A imaturidade dos outros estimula o nosso próprio amadurecimento. Parte do valor da consulta o médico deveria pagar ao paciente, pois na relação médico-paciente geralmente os dois aprendem bastante. Ah! Prevenção. O grande lugar para ver se o pneu step está cheio é no posto de abastecimento, e não na hora em que um pneu furou. Vale para os pneus e para a vida. É algo obrigatório da nossa parte adulta e deve ser feito, mesmo que a “criança” ou a “vovó” estrilem.

Publicado em junho de 2012

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Publicado em 05/06/2012


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