Beber e dirigir. Duas palavras que não combinam na teoria e muito menos na prática. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo, um décimo dos acidentes com vítimas ocorre nas rodovias devido ao excesso de álcool no sangue do motorista. Outro dado alarmante é que, por ano, mais de 35 mil pessoas morrem no mundo devido a acidentes causados por esse problema.
Diante desse cenário, no dia 20 de junho de 2008, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei nº 11.705, conhecida como Lei Seca, que proíbe o consumo de álcool antes de dirigir. A pessoa que for pega ao volante com qualquer quantidade de álcool no sangue será penalizada com infração gravíssima, multa de R$ 955,00 e suspensão do direito de dirigir por um ano. Antes era permitido até 0,6 gramas de álcool por litro de sangue (dois copos de cerveja).
O bafômetro, equipamento que permite determinar a concentração de bebida alcoólica numa pessoa por meio da análise do ar exalado pelos pulmões, acusa qualquer tipo de alimento ou medicamento que contenham a substância. Por isso, a nova lei determina margens de tolerância para esses casos específicos.
A bebida deprecia e altera funções do sistema nervoso central, como a atenção, a coordenação e o reflexo
Por enquanto, é permitido beber até 0,2 gramas de álcool por litro de sangue, o que corresponde a um cálice de vinho para uma pessoa de 80 quilos. “As pessoas, no início, podem achar exagero, mas toda lei sofre mudanças e, com o tempo, a sociedade adapta-se à nova legislação. Sem falar que isso é uma forma de segurança tanto para quem está dirigindo como para o passageiro ou pedestre”, enfatiza Alfredo Neto Maluf, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE).
Mesmo com pouco álcool no sangue, a pessoa que bebeu pode causar um grave acidente, devido à influência dessa substância em sua coordenação motora. “O álcool atinge a parte física, que envolve o organismo como um todo, e a parte psíquica, que é a mais perigosa no trânsito.
"A bebida deprecia e altera funções do sistema nervoso central, como a atenção, a coordenação e o reflexo”, diz dr. Alfredo. Esses fatores são essenciais na hora de dirigir, pois são eles que dão o senso crítico na hora do trânsito.
A lei surtiu efeitos positivos. Nos primeiros 20 dias de vigência, foi registrada queda de 57% nas mortes em decorrência de acidentes no trânsito, segundo dados do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo e divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo. Outra boa notícia vem do Sindicato dos Corretores de Seguros do Estado de São Paulo. Segundo ele, o valor dos seguros, principalmente de automóveis, deve diminuir até 20%. Isso vai ocorrer porque 25% do valor cobrado pelo seguro do carro é decorrente das colisões e, com a nova lei, o número de acidentes deve diminuir.
Alternativas para a segurança
Muito se fala na quantidade que se pode beber e o tempo que se deve esperar para que o efeito do álcool desapareça. Mas nada disso existe. “O tempo de permanência do álcool no organismo varia de uma pessoa para outra. Não há como afirmar que, em uma hora, a taça de vinho que você tomou não será acusada no bafômetro. A idade, o peso e as condições de saúde influenciam na hora do exame. Por isso, não adianta fazer cálculos para poder beber; depende da sensibilidade do organismo de cada um. A melhor alternativa é respeitar e seguir a lei”, alerta dr. Alfredo.
A maior dúvida é como as pessoas vão fazer com o happy hour depois do trabalho. A saída é tomar táxi ou transporte coletivo na hora de voltar para casa ou, então, entregar a direção para a pessoa que não bebeu. Mesmo quando consumidas quantidades pequenas e sem sinais exteriores de embriaguez, a chance de a pessoa se envolver em um acidente aumenta.
“A proibição da bebida alcoólica não pode fazer com que a reunião após o trabalho termine. Sempre que for ao happy hour, vá com alguém que não bebe ou até mesmo você pode deixar de beber. Tomar uma cerveja não é sinônimo de diversão”, aconselha o psiquiatra.
Não há como driblar o bafômetro, mas todos sabem que beber de estômago vazio facilita a ação do álcool. Isso ocorre porque a absorção é mais rápida quando não se come nada, o que faz com que a pessoa perca mais rapidamente o senso crítico, a coordenação, os reflexos e a atenção.
O álcool no organismo
Apesar de a reação da bebida no organismo depender muito das condições físicas de cada pessoa, o Núcleo Einstein de Álcool e Drogas desenvolveu uma tabela que aponta as prováveis consequências do consumo de álcool. Os cálculos para chegar à Taxa de Álcool no Sangue (TAS) levam em conta a pessoa que está de estômago vazio. Os exemplos abaixo valem como um alerta: direção e bebida não combinam.
Tabela com a taxa de álcool no sangue
Mulher
| Peso |
Bebida 100ml |
Teor de Álcool no Sangue (TAS) |
Reações no organismo |
Tempo para a TAS voltar ao normal |
| 50 quilos |
Cerveja |
0,046 |
Bem-estar, pouca inibição, calor, relaxamento.
Ligeiros deslizes de racionalidade e memória, descuido |
2h45m |
| |
Vinho |
0,062 |
3h40m |
| |
Uísque |
0,13 |
Grave prejuízo na coordenação motora e perda de controle de movimento.
Visão embaçada e descontrole de equilíbrio |
8h15m |
| 60 quilos |
Cerveja |
0,038 |
Sem perda de coordenação dos movimentos, ligeira euforia e perda de inibição. Não apresenta sintomas depressivos |
2h15m |
| |
Vinho |
0,051 |
Bem-estar, pouca inibição, calor, relaxamento.
Ligeiros deslizes de racionalidade e memória, descuido |
3h |
| |
Uísque |
0,11 |
Prejuízo significativo da coordenação motora e perda de raciocínio lógico. Equilíbrio, visão e tempo de reação comprometidos. |
6h50m |
| 70 quilos |
Cerveja |
0,033 |
Sem perda de coordenação dos movimentos, ligeira euforia e perda de inibição. Não apresenta sintomas depressivos |
1h50m |
| |
Vinho |
0,044 |
Bem-estar, pouca inibição, calor, relaxamento.
Ligeiros deslizes de racionalidade e memória, descuido |
2h35m |
| |
Uísque |
0,099 |
Leve descontrole de equilíbrio, fala, visão, tempo de reação e audição. O autocontrole diminui |
5h50m |
Homem
| Peso |
Bebida 100ml |
Taxa de Álcool no Sangue (TAS) |
Reações no organismo |
Tempo para a TAS voltar ao normal |
| 65 quilos |
Cerveja |
0,030 |
Sem perda de coordenação dos movimentos, ligeira euforia e perda de inibição. Não apresenta sintomas depressivos |
1h45m |
| |
Vinho |
0,040 |
Bem-estar, pouca inibição, calor, relaxamento.
Ligeiros deslizes de racionalidade e memória, descuido |
2h20m |
| |
Uísque |
0,090 |
Leve descontrole de equilíbrio, fala, visão, tempo de reação e audição. O autocontrole diminui |
5h20m |
| 70 quilos |
Cerveja |
0,027 |
Sem perda de coordenação dos movimentos, ligeira euforia e perda de inibição. Não apresenta sintomas depressivos |
1h40m |
| |
Vinho |
0,037 |
2h13m |
| |
Uísque |
0,084 |
Leve descontrole de equilíbrio, fala, visão, tempo de reação e audição. O autocontrole diminui |
4h55m |
| 80 quilos |
Cerveja |
0,024 |
Sem perda de coordenação dos movimentos, ligeira euforia e perda de inibição. Não apresenta sintomas depressivos |
1h25m |
| |
Vinho |
0,032 |
1h55m |
| |
Uísque |
0,073 |
Leve descontrole de equilíbrio, fala, visão, tempo de reação e audição. O autocontrole diminui |
4h20m |
Publicada em agosto/2008
Atualizada em novembro/2009