Em Dia com a Saúde

De mal com a boa alimentação

Comer é ato de necessidade e de prazer. Sensação deixada de lado quando a idealização do corpo perfeito fala mais alto. Barriga definida e músculos firmes tornam-se objeto de desejo de qualquer pessoa, em especial das mulheres jovens. A consequência dessa busca indiscriminada pelo padrão de beleza ditado pela mídia pode ocasionar uma relação de amor e ódio pela comida, a que os médicos chamam de transtornos alimentares.

De mal com a boa alimentação“É um impacto cultural muito forte, diria até violento. As bonecas, com as quais muitas meninas brincavam, se fossem humanas, não parariam em pé se analisarmos a proporção entre cintura, altura, pernas. Desde muito cedo, essa imagem é incorporada como ideal”, afirma o dr. Sérgio Nicastri, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE).

A relação complicada não se reflete só na comida, mas também na própria imagem corporal. “Esses são os dois pilares que vão moldar a doença”, salienta o psiquiatra. Para o dr. Nicastri, os transtornos alimentares hoje têm suas raízes muito mais na questão cultural que nas alterações fisiológicas ou nas psíquicas.

Os principais transtornos alimentares oficialmente reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) são a anorexia e a bulimia. Isso porque os critérios para diagnóstico de ambos são bastante claros. Quando as características do transtorno não se enquadram em bulimia ou anorexia, o diagnóstico é de transtorno alimentar sem outra especificação, o que resulta em casos diferenciados de distorção da imagem ou relação com a comida – mais difíceis de serem tratados.

Bulimia x Anorexia

Os dois apresentam a relação complicada com a comida, mas as anoréxicas se veem com imagem corporal distorcida – acreditam ser muito mais gordas do que realmente são – bem mais severa que as bulímicas. Essas últimas têm preocupação em não engordar, mas gostam muito de comer e o fazem com certa dose de culpa.

Veja as principais diferenças entre os dois casos:

Anorexia Bulimia
Perda de peso e recusa em manter-se dentro do peso considerado saudável Descontrole alimentar por meio de episódios bulímicos em que ingerem até 5000 calorias
Medo mórbido de engordar, apesar de estar muito abaixo do peso Métodos que compensam as calorias ingeridas por meio de vômito auto-induzido, uso de laxantes e diuréticos
Ausência de menstruação por pelo menos três ciclos consecutivos Episódios compulsivos (ingestão alimentar excessiva) e compensatórios (uso de laxantes e diuréticos ou auto-indução ao vômito) repetidos com frequência: pelo menos duas vezes por mês durante três meses
Comportamentos que tentam compensar o pouco que comem, como exercícios físicos exagerados Medo de engordar que leva a busca de peso abaixo do considerado saudável

Esses transtornos são bastante estudados e se atribuem, em grande parte, ao impacto da ditadura de beleza. Mas o fato é que há relatos de casos de anorexia em vários textos do século XVI. A origem da palavra é grega: an – deficiência ou ausência e orexis, apetite. O diagnóstico do comportamento anoréxico como doença ou transtorno foi relatado só em 1873. Os critérios para o diagnóstico tal qual são utilizados atualmente só começaram a surgir em 1970.

No caso da bulimia, o reconhecimento é mais recente: a primeira descrição veio em 1979. Entretanto os purgantes e eméticos – remédios para induzir ao vômito – são populares desde a Idade Média.

Outros transtornos

Além da bulimia e da anorexia, há uma série de outros transtornos que tem como foco uma relação complicada com a comida.

  • Síndrome de alimentação noturna (SAN)
    Os portadores são capazes de se levantar à noite, atacar a geladeira e, no dia seguinte, não se lembrar de nada. Boa parte deles é sonâmbula.
  • Transtorno alimentar infantil (Pica)
    O nome Pica - do latim – refere-se a um pássaro que tem como hábito comer tudo o que vê pela frente.
    É mais frequente em crianças. É considerado um transtorno de conduta com foco na alimentação. Quem sofre desse mal ingere substâncias não-comestíveis das mais diversas, de sabonete a tijolo.
  • Aversões alimentares
    Em geral são enquadradas como transtornos de ansiedade com foco na alimentação. Quem tem esse transtorno desenvolve aversão a determinado tipo de alimento, como as frutas, por exemplo. Tem reações fisiológicas como palpitação e suor excessivo ao entrar em contato com o alimento e recusam-se a ingeri-lo por conta da aversão que provocam.
  • Ortorexia
    Fixação por alimentação saudável. Pode se tornar uma obsessão quando a pessoa não consegue se alimentar por desconfiar das condições de cultivo e preparo dos alimentos.
  • Síndrome de Prader-Willi
    Tem origem genética e muitos especialistas não a consideram um transtorno alimentar. Desenvolve-se apenas nas crianças, que apresentam apetite insaciável – em termos médicos, hiperfagia. Por comer demais, as crianças portadoras têm aumento excessivo de peso e as complicações da obesidade podem levar à morte.
  • Transtorno do comer compulsivo
    Esse transtorno ainda é discutido. Os portadores têm alimentação voraz e excessiva, entretanto não apresentam comportamentos purgativos e não se sentem culpados com o excesso de peso, apenas desconfortáveis.

Tratamento multidisciplinar

O tratamento para os portadores de transtornos alimentares pode ser demorado e exige uma equipe multidisciplinar, com psiquiatras, nutricionistas e psicólogos. Para Vivian Lia, nutricionista especialista em transtornos alimentares do HIAE, o atendimento multidisciplinar é necessário porque há vários fatores que influenciam o aparecimento e manutenção dos transtornos alimentares.

Os psiquiatras e psicólogos auxiliarão a pessoa a reconstruir e repensar sua imagem corporal. O nutricionista encarrega-se da reeducação alimentar que, nos casos de anorexia severa, deve ser feita de forma gradativa porque o organismo está há muito tempo sem receber a quantidade necessária de nutrientes.

Para o dr. Nicastri, há ainda um outro profissional que pode ajudar: o fisioterapeuta ou educador físico. “Eles podem orientar a prática de exercícios de forma saudável e benéfica para o corpo, longe dos excessos”, destaca.

O quarteto medicamentos, terapia, reeducação alimentar e exercícios físicos acompanhados é em geral a opção de tratamento para boa parte dos pacientes. Entretanto, os medicamentos não são eficazes em todos os casos, como na anorexia, que requer mais atendimento terapêutico por conta da imagem corporal distorcida.

As recaídas são frequentes. “Os transtornos alimentares podem ser considerados doenças crônicas, em que a pessoa terá que aprender a conviver com o problema para superar e evitar as recaídas”, alerta o psiquiatra.

Publicada em maio/2007

Atualizada em abril/2010

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