Cuidados paliativos dispensam tratamentos desnecessários e são alento para pacientes sem chance de cura
Um estudo realizado pela unidade de inteligência da revista inglesa The Economist apontou o Brasil como um dos três piores lugares para morrer no mundo, atrás apenas da Índia e de Uganda. Os indicadores do estudo incluem expectativa de vida, porcentagem do PIB destinada à saúde, facilidade em obter analgésicos e se há treinamento de cuidados paliativos nas escolas de medicina.
Cuidados paliativos são os recursos adotados para o tratamento de pessoas com doença grave sem possibilidade de cura ou de prolongar a sua vida. A prioridade passa a ser o alívio do sofrimento do paciente – controlando a sua dor e proporcionando conforto físico e psicológico para o doente e sua família.
Com esforços nessa área, no Einstein a realidade é diferente da maioria dos centros de saúde do País. Desde 2005 – um ano antes do Conselho Federal de Medicina legitimar a recusa do paciente no fim da vida a intervenções e procedimentos fúteis – o Hospital já possuía uma política de cuidados paliativos.
"Muitas pessoas confundem com eutanásia, mas é totalmente diferente. Aceitamos a morte como parte da vida, mas ela não é o objetivo do tratamento, não queremos alcançá-la mais rápido. Nossa prioridade é aliviar o sofrimento do paciente", explica a geriatra e especialista em cuidados paliativos do Einstein, Dra. Ana Cláudia Arantes.
Conforto físico e emocional
Sem o apoio de uma equipe especializada em cuidados paliativos, os pacientes com doenças graves e sem chance de cura podem se ficar perdidos em um sofrimento contínuo em vários níveis. Os mais comuns são:
- Físico: falta de ar, dores, cansaço.
- Emocional: raiva, medo, tristeza.
- Familiar e social: preocupação em morrer e deixar a família com problemas e necessidades, por exemplo.
"No contexto do tratamento da doença, o foco é a doença em si. Nos cuidados paliativos, nosso foco é a pessoa. Consideramos o seu histórico de vida, a sua biografia, o que considera importante e os seus relacionamentos", afirma a médica.
Os primeiros cuidados
No Einstein, os cuidados paliativos começam com a própria comunicação da doença para o paciente e para sua família.
"Existem formas mais cuidadosas de se dar uma notícia como essa. Além disso, acreditamos que o paciente merece ter sua autonomia preservada e saber o que está acontecendo na sua vida naquele momento. Depois desse comunicado, avaliamos os seus sintomas e o que mais o incomoda. Também realizamos reuniões de família para alinhar expectativas e abordar situações reais e possíveis para um plano de cuidados", afirma a médica.
Os cuidados são multidimensionais e estendidos para o universo familiar e para tudo o que permeia a vida do paciente. "Acreditamos que ele tem o direito de definir suas prioridades. Quando o que mais o incomoda é, por exemplo, a ansiedade da família em relação a sua baixa aceitação alimentar, fazemos um trabalho em conjunto com a família e o paciente, já que em fases mais avançadas, é realmente esperado que o paciente não tenha fome. Estabelecendo uma melhor comunicação, alcançamos a paz entre os envolvidos", explica.
"É um momento muito individual e o nosso papel é entender e cuidar de cada paciente da forma mais personalizada possível", diz.
Suporte espiritual
O sofrimento espiritual no fim da vida costuma ser um dos mais intensos. Se não for tratado de maneira cuidadosa, pode contribuir bastante para a piora do sofrimento físico. "A espiritualidade nem sempre está diretamente ligada à religião. Muitas pessoas buscam apenas um sentido para a vida e para o que acontece com elas", explica.
Para os pacientes que quiserem um acompanhamento religioso, o Einstein conta com uma retaguarda de líderes de várias religiões. "Se for importante para esta pessoa, chamamos um líder da sua religião para visitá-la no hospital. Esse atendimento costuma acalmar e fazer bem aos pacientes", afirma.
A equipe
A equipe de cuidados paliativos é multiprofissional e formada de acordo com as necessidades de cada paciente.
"No geral, contamos com um médico, um enfermeiro, um psicólogo ou um assistente social. Todos os demais profissionais, como fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas e outros são incluídos de acordo com o plano de cuidados para cada indivíduo", explica a Dra. Ana Cláudia.
Enquanto o médico titular do paciente coordena o tratamento da doença, o médico de cuidados paliativos foca no alívio do sofrimento do paciente.
Homecare
Se o desejo do paciente for continuar o tratamento em casa, a recomendação é que isso só seja feito se houver segurança de que tudo o que ele precisar para ter conforto seja garantido. "É muito comum que queiram ficar em casa neste momento, mas se não estivermos certos de que o paciente terá tudo o que precisa para garantir seu conforto e bem-estar até seu último momento de vida, não recomendamos que saia do hospital", afirma a médica.
Publicada em maio/2011