É ampla a gama de recursos que permitem identificar precocemente tumores, possibilitando tratá-los antes que os sintomas do câncer apareçam
O câncer é a segunda causa de mortalidade do Brasil, atrás apenas das doenças cardiovasculares, respondendo por mais de 15% dos óbitos no país. A cada ano, são registrados quase 500 mil novos casos da doença. Quanto antes eles foram detectados, maiores as chances de cura e melhores as perspectivas do tratamento. Por isso, é importante manter os exames em dia, em especial aqueles que possibilitam identificar precocemente os tipos de tumores malignos que mais afetam a população: próstata, mama, intestino/reto, pulmão, estômago e colo do útero. Juntos, eles respondem por quase 40% dos casos de câncer no país.
Há exames consagrados que, comprovadamente, têm impacto significativo na preservação da vida. Eles são uma espécie de janela para o interior do organismo, possibilitando enxergar a doença em estágio inicial, antes mesmo de seus primeiros sinais. Muitas vezes, os sintomas só aparecem quando ela está em estado avançado, dificultando o tratamento. Aliado à mudança no estilo de vida, com a adoção de hábitos mais saudáveis, o diagnóstico precoce pode contribuir para a mudança da nefasta curva de crescimento do câncer.
Mama
A forma mais eficaz para identificar o câncer de mama logo no início é a mamografia. Responsável pela morte de 14 mil mulheres em 2010, o câncer de mama tem alta chance de cura. “A mamografia detecta 80% dos tumores e contribui para reduzir a mortalidade em aproximadamente 30%”, afirma a Dra. Ana Cláudia Racy, radiologista de imagens de mama do Hospital Israelita Albert Einstein.“Pessoas na faixa dos 40 aos 70 anos, que não têm sintomas e fazem o exame anual, têm maior probabilidade de descobrir as lesões mais cedo. Isso pode permitir um tratamento menos agressivo, muitas vezes, não sendo necessária a retirada total da mama e até dispensando a quimioterapia”, informa.
Segundo o Dr. Eduardo Zlotnik, ginecologista do Einstein, o câncer de mama tem sido observado em mulheres cada vez mais jovens. Por isso, alguns protocolos médicos internacionais já estabelecem fazer a primeira mamografia aos 35 anos e, depois, repetir após os 40 anos, uma vez ao ano. Quando necessário, são solicitados diagnósticos complementares, como a ultrassonografia, recomendada especialmente para pacientes jovens e com mama densa; e a ressonância magnética, para pessoas de alto risco.
Outro recurso, ainda incipiente no Brasil, é a tomossíntese, uma mamografia digital que captura imagens em fatias, permitindo uma visão tridimensional e volumétrica de mamas difíceis de serem avaliadas pela mamografia convencional. “A expectativa é que ela aumente a detecção em 10% a 15% em mulheres mais jovens com mama densa”, informa a Dra. Ana Cláudia. A tecnologia foi aprovada em 2010 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e em 2011 pelo órgão similar nos Estados Unidos, o Food and Drug Administration (FDA).
Outro aspecto relacionado ao câncer de mama é a hereditariedade, que pode responder por até 30% dos casos de câncer. Mulheres com história familiar, principalmente mãe e irmãs que tiveram a doença antes dos 50 anos, têm maior risco de desenvolvê-la. Para esses casos, existem os avançados testes genéticos para mapear a predisposição para a doença (leia mais no item “Genética”).
Colo de útero
Quando diagnosticado e tratado bem no início, o câncer de colo de útero apresenta até 100% de potencial de cura. Esse é o segundo tipo de tumor maligno que mais afeta a população feminina, com 18 mil novos casos registrados no Brasil em 2010. Sua incidência é maior a partir dos 30 anos, mas os exames preventivos devem começar bem mais cedo, em geral, a partir dos 21 anos, quando a mulher deve passar a fazer visitas regulares ao ginecologista.
O controle é feito, principalmente, por meio do “Papanicolau”. “Simples e de baixo custo, é um dos exames que mais salvam vidas no mundo”, observa o Dr. Eduardo Zlotnik. Como padrão, o teste deve ser feito uma vez ao ano, em mulheres com vida sexual ativa ou não. Após três exames consecutivos normais, quem tem baixo risco pode fazer o exame com menor frequência, de acordo com a orientação do médico.
O “Papanicolau” é uma análise citológica (das células) que permite conhecer alterações que podem levar ao câncer de colo de útero. As principais são as infecções causadas pelos vírus HPV (sigla em inglês de Papilomavirus Humano). Estudos mostram que o HPV está presente em mais de 90% dos casos da doença.
Outras técnicas são a colposcopia, exame feito com o uso de um equipamento que amplia a visão do médico, permitindo ver lesões no colo do útero; e a hibridização do HPV, um dos recursos mais modernos, mas ainda com pouco acesso no Brasil. Com alta sensibilidade, a hibridização é um exame laboratorial capaz de mostrar o tipo e a quantidade de HPV presentes do colo do útero. O ultrassom transvaginal também é importante na rotina de prevenção, pois possibilta enxergar as estruturas do útero, ovários e endométrio, que também são alvo de cânceres.
Próstata
“Quanto antes forem achadas as lesões cancerígenas, maior a chance de cura”, reforça o coordenador da área de Pesquisa Clínica em Oncologia do Einstein, Dr. Oren Smaletz. O princípio vale para os diferentes tipos de tumores, entre eles o de próstata. Um simples exame de toque retal pode evitar a descoberta de um estado avançado da doença que atinge 52 mil homens a cada ano no Brasil.
Os médicos recomendam que, junto com o exame clínico, seja realizado o PSA, marcador tumoral que mede os níveis de antígeno prostático específico no sangue, a partir dos 50 anos.
Há estudos controversos sobre a contribuição do PSA na identificação precoce deste tipo de câncer, pois outros fatores, como uma propostatite (inflamação da próstata, comum em homens mais maduros), podem alterar a quantidade de PSA, criando alarmes que podem levar o paciente a realizar uma bateria desnecessária de exames. “A indicação, contudo, é fazer o exame, em função da gravidade e velocidade com que a doença pode se desenvolver”, opina o Dr. Oren.
Pulmão
Apesar de não ser o mais incidente na população, o câncer de pulmão é o mais letal, sendo responsável pela morte de 1,5 milhão de pessoas ao ano em todo o mundo. É, também, o tumor que tem fatores de risco mais conhecido. “90% dos cânceres de pulmão são decorrentes do cigarro”, diz o Dr. Eduardo Werebe, cirurgião torácico do Einstein. No Brasil, são registrados 27 mil novos casos de tumor de pulmão a cada ano.
E, também aqui, a detecção precoce é fundamental para o prognóstico da doença. Hoje, há evidências de que a tomografia de baixa dose de radiação é mais eficaz que a radiografia como técnica para rastrear o câncer de pulmão na população de risco. Em agosto de 2011, o New England Journal of Medicine, uma das publicações mais respeitadas do mundo, trouxe um estudo que envolveu aproximadamente 53 mil tabagistas entre 55 e 74 anos de idade, que conservaram o hábito de fumar nos últimos quinze anos e não tinham sido diagnosticadas com câncer de pulmão. Metade do grupo foi submetida à tomografia de baixa dose de radiação e a outra metade à radiografia de tórax.
O resultado mostrou uma diminuição de 20% da mortalidade, num período de cinco anos, no grupo que fez a tomografia de baixa dose de radiação. “É um resultado significativo, que atesta que o método mais acurado de detecção precoce leva à prevenção do agravamento da doença”, ressalta o Dr. Eduardo.
Intestino e reto
Outro tipo freqüente de tumor é o de intestino e reto, que afeta 28 mil pessoas, a cada ano, no Brasil. Os principais grupos de risco são pessoas com polipose familiar, uma condição hereditária que pode levar ao desenvolvimento de pólipos (crescimento anormal da mucosa) no intestino grosso (cólon) antes dos 40 anos; histórico familiar de câncer de mama, ovário ou estômago; pessoas que tenham câncer em outros órgãos, retocolite (inflação crônica do intestino) ou doença de Crohn.
Exame endoscópico, a colonoscopia é considerada o melhor recurso para diagnosticar esses quadros e localizar pólipos que podem se transformar em câncer. “Ela deve ser feita após os 50 anos e repetida de acordo com o quadro clínico”, afirma o Dr. Arnaldo Ganc, gastroenterologista do Einstein. Segundo ele, se o resultado da primeira colonoscopia for normal, o exame deve ser repetido a cada cinco anos. Caso tenham sido encontrados pólipos, deve ser repetida no ano seguinte. Quem tem doença inflamatória intestinal por mais de dez anos ou polipose familiar deve realizar o exame anualmente. Após ter câncer em qualquer outro órgão, a cada cinco anos. Em caso de histórico de câncer na família, recomenda-se fazer a primeira colonoscopia dez anos antes da idade em que o familiar teve a doença.
Em pacientes mais idosos, em que a sedação usada no exame pode oferecer riscos, ou quando a colonoscopia não é bem sucedida, há a opção de fazer a chamada colonoscopia virtual, exame de tomografia realizado com o uso de contraste.
Outra opção é a cápsula endoscópica, que não exige sedação ou internação. O recurso é usado tanto para examinar o cólon quanto o intestino delgado. O paciente ingere uma cápsula pequena, dentro da qual existe uma microcâmera que faz registros durante seu percurso pelo intestino. As imagens são transmitidas para um aparelho preso ao corpo do paciente. Depois de cerca de oito horas, o paciente retorna ao hospital para que as informações sejam coletadas. A cápsula é eliminada naturalmente pelo organismo.
Outros exames simples, como a endoscopia digestiva e a ultrassonografia, ajudam a mostrar, antes, indícios de que alguma coisa não está certa no aparelho digestivo ou outros órgãos do organismo, sinalizando a necessidade de aprofundar a investigação.
Genética
A genética vem ganhado espaço na oncologia, possibilitando caracterizar o risco de tumores em pacientes com histórico familiar de câncer. O primeiro passo é uma avaliação clínica acurada, com base nas informações levantadas pelo paciente, sobre a presença de tumores malignos e benignos nos familiares, além de eventuais riscos ambientais.
Entre as características que podem estar relacionadas aos tumores hereditários estão o desenvolvimento de câncer em idade jovem, tumores múltiplos (em diferentes locais), multifocais (vários em mesmo local) e bilaterais (nos dois lados de órgãos pares, como mama e pulmão).
“Em alguns casos, quando é caracterizada uma síndrome de predisposição hereditária ao câncer, podem ser feitos testes moleculares específicos para confirmar, ou não, a presença de alterações genéticas que aumentam a suscetibilidade para o desenvolvimento de tumores”, afirma a Dra. Fernanda Teresa Lima, geneticista clínica e responsável pelo Serviço de Oncogenética do Einstein. Ainda são poucos os genes cujas mutações podem ser detectadas por testes moleculares disponíveis comercialmente. O mais conhecido e difundido é o de análise de mutação dos genes BRCA1 e BRCA2, associados ao desenvolvimento de cânceres de mama e ovário hereditários.
A importância desses procedimentos, de acordo com a geneticista, está na possibilidade de propor medidas de prevenção, rastreamento e vigilância, que podem ajudar tanto o paciente quanto outras pessoas da família.
Prevenção, a melhor arma
Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), uma vida saudável, com alimentação rica em grãos integrais, frutas, verduras e legumes, controle de peso e exercícios físicos regulares podem aumentar em até 63% a proteção contra tumores malignos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a inatividade física seja responsável por 10% a 16% dos casos de câncer de cólon e mama, além de representar uma significativa parcela das doenças crônicas, como diabetes e isquemias do coração.
“A maioria das populações e indivíduos que vivem em ambientes urbanos e industrializados tem níveis de atividade abaixo dos quais os seres humanos estão adaptados”, diz o relatório Alimentos, Nutrição, Atividade Física e Prevenção de Câncer: uma Perspectiva Global, publicado em 2007 pela OMS e pelo American Institute for Câncer Research. O relatório tem por base estudos realizados em todo o mundo, que demonstram a co-relação entre vida saudável e a prevalência de doenças, e traz uma série de recomendações.
Atento ao problema, o governo brasileiro publicou o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Não Transmissíveis no Brasil – 2011 e 2022, com metas e iniciativas para promover a atividade física e a alimentação saudável, combater o tabagismo e o consumo de álcool.
De acordo com o Dr. José Antonio Maluf de Carvalho, responsável pelo Centro de Medicina Preventiva da unidade Jardins do Einstein, essas são as medidas de maior impacto na melhoria das condições de saúde da população. “O tabagismo é crítico para doenças do pulmão, boca, laringe e esôfago, inclusive câncer; a alimentação não saudável está relacionada ao surgimento de várias doenças, assim como outras alterações são provocadas pelo estresse e pela privação do sono”, relaciona.
“Hoje já se fala na Medicina do Estilo de Vida, que enfatiza que muitos dos hábitos adquiridos nas condições de urbanização em que vivemos, na verdade, são fundamentos para o desenvolvimento de lesões em diversos órgãos”, diz o Dr. Maluf. Além de hábitos mais saudáveis, check-ups e programas preventivos como os de cessação de tabagismo, peso saudável, de redução do risco cardiovascular, de prevenção de diabetes e outros oferecidos por várias instituições são, segundo o médico, importantes aliados de quem quer investir na saúde e driblar os riscos de doenças. “A prevenção é o desafio do nosso século. É a forma de manter a qualidade de vida e a longevidade”, resume ele.