Responsabilidade dos Hospitais

Transformando nossos hábitos, transformamos nosso mundo

A medicina contemporânea satisfaz apenas parcialmente os requisitos da sustentabilidade. Certamente é aceita culturalmente em praticamente todo o mundo e nas várias épocas consideradas, independentemente das enormes diferenças da prática médica no correr dos séculos.

A aceitação cultural da medicina contemporânea está intimamente ligada aos recursos tecnológicos de que dispõe. Porém, a utilização exagerada e, muitas vezes indevida destes recursos, leva à crise social, econômica e ambiental insustentável. Pela mesma razão, entre outras, a medicina contemporânea está longe de ser socialmente justa, tanto nos países ricos como nos pobres, pois há grande iniquidade no acesso aos serviços de saúde.

A viabilidade econômica também está em cheque, especialmente nos países desenvolvidos.

A medicina não pode ser considerada uma atividade ecologicamente correta, pois contribui de maneira importante para a poluição e degradação ambiental, apesar de transformações recentes, como a construção de hospitais "verdes", que respondem apenas parcialmente ao desafio da preservação ambiental.

antes de tudo, não prejudicar

Para atingir equilíbrio entre as preocupações ambientais e a responsabilidade de garantir cuidados adequados aos pacientes, há a necessidade de se resolver três dilemas: os direitos individuais em relação à sociedade, a sustentabilidade versus justiça social e a sustentabilidade versus saúde.

O princípio hipocrático de "antes de tudo, não prejudicar" aplica-se tanto aos indivíduos como à natureza. Significa que as práticas médicas devem ser sustentáveis e não agredir o ambiente, assim como evitar danos aos pacientes. Ao prejudicar o ambiente, a medicina afeta a sociedade como um todo e prejudicará também as futuras gerações. Apesar de a ética médica enfatizar a responsabilidade do profissional em relação ao paciente individual, baseada na confiança mútua e na garantia do benefício ao paciente, cabe também ao profissional avaliar até onde as suas ações afetam a sustentabilidade da própria medicina.

Apesar da sustentabilidade do ambiente e a justiça social serem metas sinérgicas e vitais para a saúde das pessoas, a capacidade de atingir ambas simultaneamente constitui um importante desafio contemporâneo. Até onde e até quando os países ricos do hemisfério norte conseguirão manter os seus elevados níveis de consumo, inclusive de recursos médicos, sem levar em conta as necessidades dos países pobres e a degradação ambiental é outro desafio à espera de uma resposta.

No que diz respeito ao dilema da sustentabilidade versus saúde, há evidentes limites na capacidade de manter os níveis de saúde da população dos países ricos em futuro próximo e, ainda mais, na dos países pobres. A elevação dos índices de qualidade de vida e de longevidade no século XX esteve intimamente relacionada ao desenvolvimento industrial e tecnológico ao garantir o suprimento de alimentos e melhorar os serviços de saúde pública, esgotos, fornecimento de água potável, vacinações, educação e desenvolvimento de novas tecnologias médicas. No entanto, o aumento das atividades agrícolas, industriais e de outros setores da economia vem acompanhado de um aumento dos problemas de saúde.

  • Se houver uma redução simultânea do consumo de recursos naturais e de energia, juntamente com uma redução na utilização de recursos médicos, haverá prejuízo da efetividade dos serviços de saúde?
  • Serão as organizações médicas e hospitalares capazes de desenvolver sistemas eficientes no tratamento dos pacientes e, ao mesmo tempo, reduzir significativamente o consumo de recursos naturais e eliminar a poluição ambiental?
  • Será que, no futuro próximo, pacientes com doenças agudas graves, que atualmente exigem a utilização de recursos terapêuticos complexos e caros, serão privados dos mesmos?
  • Serão os responsáveis pelos sistemas de saúde pública capazes de garantir as melhores condições de pureza do ar e da água, de higiene, de educação e de alimentação?

Os profissionais da saúde, em geral, e os médicos, em particular, devem ser capazes de assumir a liderança na defesa das práticas médicas que respeitem tanto os pacientes como o ambiente. A pesquisa médica deve buscar as respostas para a garantia de uma biosfera sustentável ao mesmo tempo em que todos os profissionais da saúde devem incluir a sustentabilidade ambiental as suas obrigações éticas. Esta deve ser incluída no ensino médico e fazer parte dos debates científicos em congressos e seminários profissionais. As necessidades individuais e as limitações da natureza deverão ser consideradas em conjunto nas decisões bioéticas e na formulação das políticas de saúde de todas as nações.

É imperiosa a necessidade de grandes mudanças na prática médica, com a incorporação dos conceitos de preservação ambiental, bem como o envolvimento dos profissionais médicos na formulação de novos conceitos éticos que visem à proteção tanto dos pacientes como do ambiente e da natureza.

  • 25% das doenças são produzidas por fatores ambientais
  • Os profissionais da saúde ainda não reconhecem adequadamente a importância das suas ações, voltadas para a saúde individual, sobre o ambiente
  • A degradação do ambiente gera doenças que necessitam de tratamento médico, também os serviços de saúde geram poluição ambientalNos Estados Unidos, serviços médicos geram 3 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano
  • Nos Estados Unidos, 62 metrópoles, com 41 milhões de habitantes, consomem água considerada potável contendo antibióticos, ansiolíticos, antidepressivos, antiepilépticos e hormônios sexuais, entre outros resíduos
  • A geração atual já é responsável pelo declínio de 30% dos recursos naturais em relação a 1970 e pelo fato de 80% destes recursos serem utilizados por 20% da população mundial

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