Instabilidade do ombro (luxação do ombro)
Glossário de Saúde do Einstein
CID 10 - S430
CID 10 - S430

Muitos já ouviram falar ou presenciaram um amigo que o “ombro saiu do lugar”. A luxação do ombro é definida como a “perda do contato articular”. Quando isso ocorre, o úmero perde o contato com a glenóide provocando a lesão de ligamentos, labrum e em alguns casos de tendões (principalmente em indivíduos mais velhos).
A luxação do ombro mais comum, 90% dos casos, é o deslocamento da cabeça do úmero para anterior. Existe um outro tipo de luxação em que o úmero será deslocado para trás, chamada de luxação posterior. Ela é muito mais rara (menos de 10% dos casos de luxação) e ocorre após convulsões, choques elétricos ou acidentes automobilísticos em que o paciente encontrava-se com o braço esticado no volante e sofreu um trauma súbito.
Após o primeiro episódio da luxação, o lábio e os ligamentos sofrem algum grau de lesão. Esses tecidos deveriam cicatrizar em uma posição normal para que o paciente não sofresse novos deslocamentos. Infelizmente, essa cicatrização não ocorre na maioria dos casos e, quando ocorre, os tecidos cicatrizam em uma posição anormal. Se não ocorrer a cicatrização, o ombro poderá luxar novamente, gerando a chamada luxação recidivante ou instabilidade glenoumeral.
Com novas luxações, os ligamentos podem alongar-se e as lesões podem progredir para o osso. As lesões no osso, chamadas de lesão de Hill-Sachs (na cabeça umeral pósterolateral) ou de Bankart ósseo (na glenoide anteroinferior), aumentam ainda mais a chance de uma nova luxação.

O médico responsável pede para que o paciente conte a história de como se lesionou. Normalmente após o trauma, o ombro é “colocado no lugar” por alguém presente na hora da lesão, paramédico ou em uma unidade de pronto atendimento. Inicialmente é realizada a radiografia do ombro para observar a presença de lesões ósseas e se a redução realizada foi efetiva. A seguir, o exame de escolha é a ressonância magnética do ombro para evidenciar as lesões tanto ósseas (Hill-sachs e Bankart ósseo) quanto labrais (Bankart) e ligamentares. A tomografia é realizada em casos onde a lesão óssea necessita de melhor avaliação (Hill-sachs e Bankart ósseo).
O objetivo primordial inicial é a redução do ombro – colocar o ombro no lugar. Isso deve ser feito por um médico preferencialmente. Após a redução, uma nova radiografia deve ser realizada para evidenciar a colocação do ombro no lugar. A tipoia deve ser utilizada para proteger o ombro e repousar o braço afetado. Em pacientes de baixa demanda, de maior idade ou em casos de menor gravidade, o tratamento inicial será baseado no uso da tipoia e uso de medicações para dor (analgésicos e anti-inflamatórios), seguido pela fisioterapia.
A fisioterapia dever ser realizada para analgesia (melhora da dor), recuperação da amplitude de movimento e fortalecimento muscular, com especial atenção aos músculos que formam os tendões do manguito rotador e aos músculos estabilizadores da escápula, com equipe de fisioterapeutas preparados.
Pacientes com maior risco de luxação (jovens, esportistas ou competitivos e esportes de contato) podem precisar de tratamento cirúrgico após o primeiro episódio da luxação. Nos indivíduos que possuem lesões do lábio, lesões ósseas associadas, lesões dos tendões do manguito rotador ou em indivíduos com alta demanda - como, por exemplo, atleta de esportes de arremesso - o tratamento cirúrgico pode ser indicado. A cirurgia também é recomendável àqueles que sofrem casos recorrentes de luxação ou subluxação, sem melhora com o tratamento conservador. Existem diversos estudos avaliando a vantagem da cirurgia, mesmo após um único episódio de luxação.
Na maioria dos casos, o tratamento pode ser realizado por via artroscópica, com 2 a 3 orifícios de 0,5 cm no ombro. Nesse procedimento, é realizado o reparo do lábio (tecido avulsionado ou mal cicatrizado após as luxações) e a capsuloplastia (retensionamento da cápsula articular e dos ligamentos glenoumerais), através de âncoras (pequenos parafusos absorvíveis que são presos ao osso de um lado e tem fios de sutura no outro lado). Com a reinserção, é possível a cicatrização dos ligamentos e do labrum em uma boa posição, apresentando um alto índice de sucesso.
Em pacientes que apresentam lesões ósseas da glenóide (acima de 25%), o tratamento por meio da artroscopia não apresenta uma taxa de sucesso satisfatória. Nesses casos, é mais recomendada a cirurgia que chamamos de bloqueio ósseo, conhecido como cirurgia de Bristow ou de Latarjet, o osso chamado de coracóide, localizado próximo à articulação do ombro, é movido e fixado na borda da glenóide (local em que houve lesão óssea), aumentando a área óssea e tensionando de modo dinâmico um dos músculos do manguito rotador. É uma cirurgia realizada com maior frequência em esportes competitivos de alto impacto no ombro, rugby. O procedimento apresenta alto índice de sucesso, mas ainda é realizada por via aberta - com incisões na pele de 5 a 8 cm. Existem estudos para sua realização por artroscopia, mas o método ainda não é seguro o bastante para ser realizado de rotina. Há ainda outros métodos que podem ser realizados para o tratamento da luxação recidivante, tais como o procedimento de Remplissage - para lesões ósseas da cabeça do úmero -, a capsuloplastia, recomendada para instabilidade multidirecional aos pacientes com frouxidão ligamentar, ou a fixação de fraturas associadas com âncoras ou parafusos. Atualmente a cirurgia de Latarjet tem sido realizada também por via artroscópica. Consulte sempre um médico especialista para realizar uma avaliação correta!