Paralisia Cerebral
Glossário de Saúde do Einstein
- Doença
A paralisia cerebral (PC), também conhecida como encefalopatia crônica não evolutiva (ECNE), se refere a um conjunto de problemas causados por uma lesão no cérebro imaturo, que leva a graus variados de alterações dos movimentos do tronco e dos membros, podendo também interferir na função sensorial e cognitiva. É importante ressaltar que, nesse caso, a lesão que ocorre no cérebro não é progressiva, ou seja, não piora com o passar do tempo. Entretanto, as alterações no funcionamento e controle muscular podem levar a alterações ortopédicas que podem se acentuar com o crescimento da criança.
Habitualmente, a suspeita ocorre no primeiro ano de vida, quando o pediatra nota algum atraso nos marcos do desenvolvimento (ex.: rolar, sentar e andar), ou percebe alguma diferença entre os movimentos de um membro ou de um lado do corpo.
A criança com paralisia cerebral normalmente apresenta uma certa rigidez muscular e dificuldade para controlar os movimentos. A depender do local e tamanho da lesão no cérebro, a criança também pode apresentar outros problemas, como alterações de percepção e um déficit intelectual.
É importante ressaltar que os pacientes com paralisia cerebral podem ter desde alterações muito leves e localizadas, com inteligência praticamente normal (ex.: uma dificuldade isolada nos movimentos de um dos pés), até quadros em que o paciente não consegue sentar sozinho e é dependente para suas atividades cotidianas (Figura 1).

A Classificação da Função Motora Grossa (GMFCS) é muito utilizada para agrupar as crianças com paralisia cerebral de acordo com as suas habilidades motoras (Figura 2). Essa classificação é muito importante para saber o que esperar de cada criança e definir as melhores estratégias de tratamento. Uma breve descrição de cada nível para a faixa etária dos 6-12 anos pode ser encontrada a seguir:

Do ponto de vista ortopédico, as crianças com paralisia cerebral podem desenvolver encurtamento de tendões e músculos, que levam a deformidades ósseas e articulares. Estas alterações podem causar dificuldade para as crianças GMFCS I, II e III caminharem, fazendo com que gastem mais energia e se cansem mais facilmente. Nas crianças dos níveis IV e V, é comum alterações na coluna, como a escoliose, e nos quadris, que podem inclusive se deslocar de forma gradual durante o crescimento da criança.
A lesão cerebral da criança com paralisia cerebral pode ocorrer antes, durante ou após o nascimento. Entretanto, em muitos casos, a causa exata que levou a esse problema não pode ser determinada com certeza. Crianças prematuras ou com muito baixo peso ao nascer apresentam risco aumentado de desenvolver a paralisia cerebral. De acordo com o período em que ocorreu a lesão e a extensão da área afetada, a criança vai apresentar graus variados de comprometimento.
O diagnóstico da paralisia cerebral geralmente é feito por meio de um exame físico minucioso pelo médico pediatra ou neuropediatra. Um exame de ressonância magnética do crânio pode ser indicado para que se confirme o diagnóstico e se determine o local e a natureza da lesão cerebral. Em alguns casos, principalmente nos pacientes com casos mais leves, o ortopedista é o primeiro a fazer a suspeita diagnóstica.
Durante o acompanhamento da criança, outros exames podem ser necessários para auxiliar no planejamento do tratamento. As radiografias de bacia e coluna são fundamentais, principalmente nos pacientes GMFCS IV e V, que têm maior chance de problemas nestes locais (Figura 3). O primeiro sinal de que o quadril está se deslocando no paciente com paralisia cerebral pode ser apenas uma alteração na radiografia, sem nenhuma alteração externa aparente.

Para as crianças que apresentam dificuldade de andar devido a encurtamentos musculares e tendíneos e/ou deformidades ósseas e articulares, o exame de marcha é muito importante para a compreensão de todas as alterações em sua forma de caminhar e para planejar a melhor estratégia de tratamento. O Einstein dispõe de um laboratório de movimento em operação desde 2008, com equipe altamente especializada na avaliação dos problemas da marcha de crianças com paralisia cerebral. Saiba mais clicando aqui.
O tratamento do paciente com paralisia cerebral deve envolver diversas especialidades médicas, incluindo o pediatra, o neuropediatra, o ortopedista e o fisiatra. Além disso, uma equipe de profissionais deve estar envolvida com a reabilitação da criança, incluindo o fisioterapeuta, o terapeuta ocupacional, o pedagogo, o fonoaudiólogo e o psicólogo. De uma forma geral, o objetivo do tratamento das crianças com paralisia cerebral é fazer com que elas desenvolvam o seu máximo potencial e, quando possível, adquiram a independência que será importante na vida adulta. Infelizmente, não há método conhecido para reverter a lesão cerebral. Portanto, todos os métodos de tratamento buscam controlar as alterações causadas pela mesma.
É importante que o nível do GMFCS seja determinado para auxiliar na definição de qual linha de tratamento deve ser seguida. Os pacientes GMFCS I, II e III, geralmente têm boa parte de seus objetivos de tratamento ligados à melhora da sua capacidade de andar. Por outro lado, os pacientes do nível IV e V têm objetivos mais focados no posicionamento adequado, no controle da dor e no tratamento de eventuais alterações no quadril e na coluna.
Em nossa experiência, com frequência observamos que o tratamento da criança com PC em seus primeiros anos de vida é direcionado principalmente ao desenvolvimento motor. Entretanto, é importante sinalizar que, para a futura independência dessa criança, o desenvolvimento cognitivo e da capacidade de comunicação não podem ser desconsiderados. Por essa razão, deve-se enfatizar que a integração social e a escolaridade são mandatórias. Ao frequentar a escola, o convívio com as outras crianças, além de incrementar a capacidade de comunicação e o desenvolvimento cognitivo, também estimulará o desempenho nas atividades motoras.
Devemos lembrar que o equilíbrio familiar também é muito importante para que essa criança consiga desenvolver todo seu potencial. O convívio com irmãos e familiares deve ser estimulado, de forma que a criança esteja sempre inserida nas atividades familiares e sociais.
Na reabilitação, o médico e os terapeutas podem recomendar diversos métodos para a melhora do controle dos movimentos, do equilíbrio e da força. Algumas crianças precisam utilizar órteses para estabilizar as articulações e controlar o posicionamento, e algumas ainda requerem o uso de algum meio auxiliar, como andador ou muletas (Figura 4).

Algumas crianças com paralisia cerebral podem ser elegíveis a procedimentos neurocirúrgicos para auxiliar no controle do tônus muscular, como a rizotomia dorsal seletiva e a bomba de baclofeno intratecal. Esses procedimentos têm indicações bem específicas e nem todo paciente se beneficia de tais intervenções. Converse com seu médico sobre as indicações no caso da sua criança.
Quando ocorrem encurtamentos musculares e tendíneos e deformidades ósseas e articulares que interferem na função dos órgãos e atrapalham as atividades cotidianas das crianças, a cirurgia ortopédica é muitas vezes indicada. O exame realizado no laboratório de marcha é muito importante no planejamento cirúrgico das crianças nível I, II e III do GMFCS para que todas as alterações que comprometem a sua capacidade de andar possam ser compreendidas e tratadas de forma adequada. O principal objetivo é melhorar o alinhamento dos membros inferiores, sem enfraquecer a criança de forma excessiva. Normalmente esses procedimentos são realizados após os 6-7 anos de idade, sendo que alguns tipos de cirurgias são mais indicados em uma idade mais próxima da adolescência. O seu médico saberá quais são as intervenções mais indicadas para cada caso.
As crianças com PC nível IV e V frequentemente requerem procedimentos cirúrgicos para garantir seu conforto e posicionamento adequados. Particularmente os quadris e a coluna devem ser monitorados de perto. Quanto mais precoces as intervenções nesse nível, geralmente melhores os resultados.
Revisão técnica: Francesco Camara Blumetti, Ortopedista e Traumatologista.
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