Os pacientes foram divididos em dois grupos: um recebeu suplementação de probiótico (Lactobacillus acidophilus e Bifidobacterium lactis) e outro recebeu placebo durante 90 dias após a cirurgia bariátrica, com início no sétimo dia de pós-operatório.
Segundo Lígia, todos os participantes foram avaliados no pré-operatório e no pós-operatório aos 90 dias e 1 ano após a cirurgia. Todos foram operados pela mesma equipe cirúrgica e responderam a questionários validados internacionalmente para avaliação de vício ou compulsão alimentar.
Segundo o estudo, antes da cirurgia, 1/3 dos pacientes se enquadrava nos critérios diagnósticos de dependência ou compulsão alimentar – um número alto, mas esperado dentro dessa população de pessoas com obesidade que aguardava a cirurgia bariátrica. Os mesmos questionários foram aplicados 90 dias depois do início do uso dos suplementos e repetidos após um ano.
"Reaplicamos o questionário e nos primeiros 90 dias observamos uma redução drástica nos sintomas. Mas isso já era esperado, pois no início do pós-operatório o paciente bariátrico não pode e nem consegue comer muito. Então, não podemos dizer que foi efeito dos probióticos", explicou a nutricionista.
Após 90 dias, o uso dos probióticos foi interrompido (o uso em excesso pode piorar a flora intestinal) e os pacientes voltaram a ser avaliados um ano após a cirurgia. "Observamos uma redução nos sintomas de vício e compulsão muito significativa em comparação com o grupo que recebeu placebo. Esses resultados abrem um caminho para uma série de questões que podem ser respondidas em outros estudos sobre o tema", complementa a especialista.
Há algumas hipóteses para explicar os resultados, mas Lígia ressalta que o objetivo principal da pesquisa não era identificar o mecanismo bioquímico envolvido. De acordo com ela, entre as possíveis explicações estão a modificação da própria microbiota intestinal depois da cirurgia, refletindo em uma melhora geral da qualidade da saúde.
Esse, inclusive, é o tema de outra pesquisa que está sendo realizada na UFPR sobre o assunto – investigar se há mudanças significativas na microbiota intestinal do paciente que fez bariátrica.
Apesar dos resultados positivos, Lígia ressalta a suplementação de probiótico não é o mesmo que ingerir alimentos com probióticos — como iogurtes com lactobacilos vivos. Em geral, esses produtos são vendidos prontos ou manipulados em farmácias especializadas (o preço varia de R$ 60 a R$ 150 reais por mês), podendo conter cepas de micro-organismos em diferentes concentrações a depender do desfecho clínico que se espera.
A nutricionista diz ainda que não é qualquer probiótico que produz esse efeito e nem qualquer pessoa que poderá se beneficiar. Por isso, é importante que o uso seja orientado por um profissional especializado. Ela explica que o uso em excesso ou por tempo prolongado pode causar um efeito ruim e piorar o intestino, levando a um quadro com disbiose intestinal.
"A probioticoterapia não é mágica. Tudo nessa área ainda é muito novo, estamos ainda engatinhando. Por enquanto, temos mais perguntas do que respostas e é assim que a ciência vai evoluindo", finaliza pesquisadora.
Revisão técnica: Alexandre R. Marra, pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE).