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Hospitais que pretendem estudar ou aplicar terapias gênicas e tratamentos com células ou tecidos humanos modificados precisam estar na fronteira do conhecimento. É o caso do Einstein
Terapias Avançadas

Terapias avançadas prometem uma revolução – a quem estiver preparado

Hospitais que pretendem estudar ou aplicar terapias gênicas e tratamentos com células ou tecidos humanos modificados precisam estar na fronteira do conhecimento. É o caso do Einstein

Até os marcos regulatórios das terapias avançadas são recentes no Brasil. Em 2018, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou suas primeiras normas específicas sobre esses produtos – dois anos depois, foi aprovada no Brasil a primeira terapia gênica, contra doenças hereditárias de retina. Ainda em 2020, veio outra liberação, dessa vez com um medicamento para lidar com a Atrofia Muscular Espinhal (AME), que hoje está disponível no SUS. De lá para cá, chegaram novas regulações (e aprovações de medicações, como as CAR-T Cells), reforçando uma tendência na busca por tratamentos que se valem de terapia celular, terapia gênica ou engenharia tecidual.

Antes disso tudo, o Einstein se ajustava a esse novo cenário nacional. De olho nas pesquisas que se avolumavam, começou a incorporar equipamentos na década passada, adaptar a infraestrutura, treinar a equipe e agregar novos profissionais para estudar e aplicar as terapias avançadas.

“Estar na vanguarda do conhecimento não acontece da noite para o dia. É uma maratona. Você mira um objetivo distante e vai, passada a passada, rumo a ele”, afirma o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor de Pesquisa do Einstein. “Isso envolve investimentos com algum risco, visão de futuro, qualificação profissional, excelência nos procedimentos e uma busca incessante por entregar um amplo leque de possibilidades para o paciente”, completa.

Infográfico sobre Terapias avançadas prometem uma revolução – a quem estiver preparado
Infográfico sobre As formas avançadas de virar o sistema imune contra o câncer

Segundo Rizzo, foi com essa visão que o Einstein começou a se preparar para estudar as CAR-T Cells, um tratamento que se baseia em utilizar linfócitos T retirados do próprio paciente e geneticamente manipulados em laboratório para melhor atacar o câncer – e, então, devolvidos ao paciente. Essa linha de pesquisa rendeu inclusive um projeto junto ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS).

Como fruto da parceria, é possível que uma versão brasileira desse tratamento de ponta (com alta taxa de eficácia) esteja disponível para o SUS, o que economizaria recursos públicos e ampliaria o acesso.

Em paralelo, a organização adquiriu ainda mais conhecimento e estrutura para seguir com pesquisas altamente avançadas. Hoje, o Einstein possui Salas Limpas, laboratórios com ambiente altamente controlado para evitar contaminações, acreditações para manejo de diferentes terapias avançadas, equipamentos de ponta para manusear tecidos do corpo… E usa esse potencial para seguir avançando. Por exemplo, a organização já investiga também as CAR-NK. No caso, é uma manipulação de células imunológicas chamadas de Natural Killers, que têm qualidades distintas dos linfócitos T.

É, em resumo, um círculo virtuoso de aprendizado e aprimoramento da infraestrutura que aproxima a organização do que há de mais moderno no cuidado. E que proporciona alianças. Recentemente, o Einstein foi escolhido pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação (Embrapii) para gerenciar o Centro de Competência em Terapias Avançadas (CCTA).

Por meio de investimentos via Embrapii, o CCTA cria sinergias entre o Einstein, o parque industrial brasileiro e outras organizações de pesquisa para desenvolvimento de novas expertises e produtos inovadores em terapias avançadas, com potencial de beneficiar amplamente a população brasileira.

Para além da Oncologia

As terapias avançadas, embora tenham um potencial imenso contra o câncer, não se resumem a ele. Um dos primeiros projetos do Einstein com o PROADI-SUS, aliás, envolve uma terapia gênica contra a anemia falciforme, uma doença rara que atinge aproximadamente 100 mil brasileiros (especialmente os negros), e que altera a estrutura das hemáceas, gerando crises de dor e graves complicações. Desde 2018, a organização investiga formas de editar a mutação genética por trás dessa condição.

Os pesquisadores começaram utilizando a ferramenta CRISPR-Cas9, que é utilizada para fazer alterações genéticas no DNA. Corrigiram com sucesso a mutação causadora da doença nas células-tronco do sangue, que passaram então a produzir hemoglobina saudável. “Porém, em estudos subsequentes em animais, foi notado que esta ferramenta prejudicava a qualidade da célula manipulada”, afirma Ricardo Weinlich, imunologista e coordenador de pesquisas com terapias gênicas do Einstein.

O aparente insucesso, na verdade, trouxe ensinamentos e avanços. A partir daí, os cientistas do Einstein trocaram a ferramenta de edição gênica por uma mais moderna, com resultados bastante promissores. A ideia é seguir com os estudos de validação e segurança nos próximos anos.

Se tudo der certo, será mais uma tecnologia de alta complexidade disponibilizada ao SUS para uma doença especialmente prevalente entre a população negra, que já sofre mais com a falta de acesso a recursos de saúde.

Desde 2020, o Einstein também está em busca de novos tratamentos contra a epidermólise bolhosa. Essa é uma doença que deixa a pele fragilizada – qualquer fricção ou batida gera inflamações, bolhas e lesões, que exigem cuidados contínuos e favorecem infecções perigosas.

Em uma aliança com a organização DEBRA Brasil, os pesquisadores do Einstein puderam entender qual era a mutação genética mais prevalente no país associada à epidermólise bolhosa distrófica, que é o subtipo mais comum da doença, e especialmente grave. “Então aí encontramos um alvo para trabalhar”, diz Weinlich.

Então eles utilizaram ferramentas de edição gênica para gerar duas possíveis soluções, ambas com as células dos pacientes manipuladas geneticamente. Uma é criar, com essas células, fragmentos de pele em laboratório e, então, fazer um transplante de pele nas regiões acometidas pela doença. A outra é aplicar microinjeções dessas células diretamente nos machucados.

“Não é uma cura, mas há dados interessantes de desinflamação e cicatrização mais rápidas, o que se converteria em uma maior qualidade de vida. Ainda precisamos avançar, mas cada passo dado abre portas para novas oportunidades terapêuticas”

Ricardo Weinlich, imunologista e coordenador de pesquisas com terapias gênicas do Einstein
 

na Neurologia, o Einstein foi o primeiro hospital a infundir a terapia gênica para Atrofia Muscular Espinhal, em 2020 – no mesmo ano de sua aprovação. A organização também é capaz de criar mini-cérebros (e outros órgãos em miniatura) para fins de pesquisa, o que avança o conhecimento e reduz a necessidade do uso de animais.

Na Ortopedia, implantes de condrócitos ou células mesenquimais estão sendo estudados para regenerar a cartilagem do joelho, em condições crônicas como a osteoartrose. E por aí vai.

“Com tantos desenvolvimentos internos e um radar para o que está surgindo, já estamos olhando à frente e fazendo os próximos investimentos”, destaca Rizzo. RNAs mensageiros, CAR-T, edição gênica, engenharia tecidual… Não sabemos exatamente de onde virá o próximo breakthough na Medicina – daí porque estar pronto para lidar com todo esse arsenal será um diferencial cada vez mais importante em centros de referência.