O câncer de peritônio é uma doença rara entre os brasileiros, mas que merece atenção por sua relação com outros tumores abdominais e pela dificuldade em ser detectado nos estágios iniciais.
Os tumores que se iniciam nessa parte do corpo têm uma estimativa de incidência de cerca de seis casos para cada 1 milhão de indivíduos.
O que é peritônio?
O peritônio é uma membrana que recobre todos os órgãos dentro do abdômen, como intestinos, fígado, estômago e ovários. Sua principal função é reabsorver líquidos que “vazam” dos órgãos, mas ele também atua na defesa da cavidade abdominal contra doenças e na produção de alguns hormônios.
Existem dois tipos de câncer de peritônio
Tumores secundários: são os mais comuns e ocorrem quando o câncer de outro órgão (como ovário, estômago ou intestino) se espalha para o peritônio.
Tumores primários: extremamente raros, são os que nascem diretamente no peritônio. Eles incluem:
- Adenocarcinoma de peritônio: mais frequente, é associado a mutações genéticas nos genes BRCA1 e BRCA2, comuns em famílias com histórico de câncer de mama e ovário;
- Mesotelioma peritoneal: relacionado quase exclusivamente à exposição ao amianto (asbestos), uma família de minérios que já foi muito utilizada em materiais de construção, e que teve seu uso banido.
Manifestações
Nos estágios iniciais, os tumores podem não apresentar sintomas ou causar sinais muito sutis. Com o avanço da doença, podem surgir:
- cólica abdominal persistente;
- aumento do volume abdominal (por acúmulo de líquido, chamado de ascite);
- constipação (intestino preso);
- náuseas e sensação de empachamento.
Por serem sintomas comuns a diferentes doenças, muitas vezes o diagnóstico acontece tardiamente, o que reforça a importância da investigação médica diante de desconfortos persistentes.
Diagnóstico é um desafio
O câncer de peritônio pode se apresentar como espessamento ou pequenos nódulos na membrana, que nem sempre são identificados na tomografia. Por isso, o padrão-ouro para o diagnóstico é a laparoscopia, um procedimento minimamente invasivo que permite visualizar o peritônio diretamente e coletar amostras (biópsias) para análise.
Outro exame que pode levantar suspeita é o marcador tumoral CA 125, que tende a se elevar quando há qualquer tipo de inflamação nessa parte do corpo, seja devido aos tumores ou por conta de outras doenças, como a endometriose.
Abordagens terapêuticas modernas e personalizadas
O tratamento combina cirurgia e terapias sistêmicas (que têm efeito no corpo todo), definidas conforme o tipo e estágio da doença.
A peritonectomia é a cirurgia para a remoção da parte afetada do peritônio. O procedimento pode ser associado, ou não, à quimioterapia intraperitoneal, ou seja, a aplicação de quimioterápicos diretamente na cavidade abdominal para eliminar células residuais.
Além da quimioterapia tradicional, existem novas estratégias terapêuticas, que permitem tratamentos mais personalizados e eficazes:
- Antiangiogênicos: bloqueiam a formação de novos vasos sanguíneos que nutrem o tumor, “cortando o suprimento” de oxigênio e nutrientes. É o caso de medicamentos como o befacizumabe;
- Imunoterapias: estimulam o sistema imunológico do próprio paciente a reconhecer e destruir as células cancerígenas, agindo como um “reforço natural” às defesas do corpo;
- Terapias-alvo: agem de forma precisa em mutações genéticas específicas das células tumorais, atacando apenas o câncer e poupando as células saudáveis. Entre elas estão o olaparibe e o niraparibe, usados especialmente em tumores associados a mutações nos genes BRCA1 e BRCA2.
Existe cura?
Sim. Quando o tumor é detectado precocemente e é possível realizar a remoção completa por cirurgia, associada ao tratamento adequado, há chances reais de cura. O desafio está no diagnóstico tardio e na dificuldade de remover completamente o peritônio, já que ele envolve diversos órgãos.
Prevenção: foco nos grupos de risco
Como o tumor primário de peritônio é muito raro, a prevenção é direcionada às pessoas com maior risco genético ou ambiental. Mulheres com mutações BRCA1 ou BRCA2, por exemplo, podem ser orientadas a realizar remoção preventiva de ovários e trompas, o que reduz o risco de câncer peritoneal.
Também é essencial evitar o contato com amianto, ainda presente em algumas construções antigas e ambientes industriais.
Conhecer os sintomas e os fatores de risco para o câncer, além de manter as consultas médicas e exames de rotina em dia, são os principais caminhos para um diagnóstico precoce e um tratamento mais eficaz.
Revisão técnica: Diogo Bugano, oncologista do Einstein Hospital Israelita (CRM-SP 139559)




