Esse preconceito tende a ser tão incorporado ao cotidiano, que começa a se manifestar ainda na infância. Crianças aprendem, por exemplo, que pessoas mais velhas são necessariamente frágeis ou dependentes. Ao longo da vida, esses estereótipos vão sendo reforçados e podem acabar fazendo com que o próprio indivíduo passe a acreditar que sua idade o define.
O etarismo não se aplica apenas a pessoas mais velhas: julgar uma criança que “ainda” brinca de boneco, por exemplo, também é uma forma desse tipo de preconceito. O resultado é um ciclo difícil de romper: a pessoa absorve essa imagem e passa a limitar a si mesma à medida que os anos passam. Com isso, o estigma deixa de ser apenas uma questão social e começa a produzir consequências concretas para a saúde.
Preconceito também adoece
Uma das principais consequências do etarismo aparece na saúde mental. Entre os efeitos mais comuns estão depressão, alterações no sono e no humor, estresse e uma sensação de desvalorização pessoal (também conhecida como “menos-valia”).
Mas o impacto não fica apenas na cabeça. O estresse provocado por situações repetidas de preconceito pode ter efeitos no organismo, afetando, por exemplo, o sistema imunológico, os músculos e até as funções cognitivas relacionadas à memória, à atenção e ao raciocínio.
Há ainda outro problema: quando sintomas são automaticamente atribuídos ao envelhecimento, problemas de saúde que poderiam ser investigados e tratados podem acabar sendo ignorados. Uma dor não deve ser considerada normal simplesmente porque apareceu em uma pessoa mais velha.
O mesmo vale para alterações importantes de memória, audição, visão ou comportamento. Envelhecer traz muitas modificações, mas nem toda mudança é inevitável ou deve ser aceita sem investigação.
Discriminação fantasiada de carinho
Nem sempre o preconceito aparece de maneira agressiva. Às vezes, está escondido em expressões que parecem inofensivas. Chamar uma pessoa adulta de “senhorinha”, “velhinha” ou “avozinho”, por exemplo, pode parecer uma demonstração de carinho. No entanto, elas também podem transmitir a ideia de que aquela pessoa é frágil, incapaz ou infantilizada.
Outro comportamento comum é tomar decisões por alguém mais velho sem sequer perguntar o que deseja. Isso pode acontecer quando familiares, profissionais ou desconhecidos presumem que uma pessoa idosa não consegue decidir por conta própria. Atitudes como essas contribuem para o processo de perda de autonomia.
Há uma diferença entre autonomia e independência. Enquanto a primeira se refere à capacidade de tomar decisões sobre a própria vida, a segunda diz respeito à capacidade de realizar atividades fisicamente. Uma pessoa pode precisar de ajuda para uma tarefa e, ainda assim, continuar plenamente capaz de decidir o que quer fazer.
Mulheres podem sofrer mais
O etarismo também se mistura com o sexismo, o preconceito relacionado ao gênero. Para as mulheres, envelhecer muitas vezes significa enfrentar uma cobrança dupla: a sociedade valoriza a juventude feminina e, ao mesmo tempo, espera que elas continuem desempenhando diversos papéis relacionados à família, ao trabalho e aos cuidados.
A aparência é um dos campos em que essa diferença fica mais evidente. Enquanto cabelos grisalhos podem ser vistos como sinal de charme, maturidade e experiência nos homens, nas mulheres eles podem ser associados a desleixo ou falta de cuidado.
Rugas, cabelos brancos e outras marcas do tempo não são problemas de saúde. Cuidar da aparência como quiser é uma escolha legítima. O problema está quando essa escolha deixa de ser livre e passa a ser uma obrigação para a mulher continuar sendo considerada bonita, profissional ou socialmente relevante.
Mercado de trabalho
Outro campo importante de combate ao etarismo é o mercado de trabalho. A idade pode trazer algumas mudanças físicas. Uma pessoa pode, por exemplo, precisar de mais tempo para realizar determinada tarefa ou de recursos que facilitem a leitura, a comunicação ou a audição. Isso não significa, necessariamente, que sua capacidade profissional tenha diminuído.
Experiência, conhecimento acumulado e capacidade de resolver problemas também fazem parte do desempenho de um profissional. Por isso, estabelecer limites apenas com base na idade pode significar desperdiçar competências.
O problema também aparece quando a sociedade determina que existe uma idade certa para parar de produzir, aprender ou começar algo novo. Não deve existir uma data universal para deixar de trabalhar, estudar, praticar atividades físicas, viajar ou mudar de carreira.
Preconceito institucional
O etarismo não acontece apenas nas relações entre indivíduos. Ele também pode ser institucional, quando regras, procedimentos ou decisões de organizações colocam pessoas mais velhas ou jovens em desvantagem.
Um exemplo é tratar toda a população acima de determinada idade como se fosse um grupo homogêneo. Uma pessoa de 60 anos pode ter condições físicas, cognitivas e sociais completamente diferentes de alguém de 90 ou 100 anos.
Por isso, usar somente a idade cronológica para determinar sua capacidade pode levar a decisões injustas. O mesmo cuidado vale para a área da saúde. Pessoas da mesma faixa etária podem ter condições muito diferentes, e a avaliação deve considerar o indivíduo como um todo, e não apenas o número que aparece em sua certidão de nascimento. Todos têm direito de ser atendidos adequadamente pelo sistema de saúde, independentemente da idade cronológica.
Combate ao etarismo
Uma forma simples de entender o problema é separar três conceitos: estereótipo, preconceito e discriminação. O estereótipo é uma ideia generalizada sobre determinado grupo, como acreditar que toda pessoa idosa é frágil. O preconceito aparece quando essa ideia vem acompanhada de uma avaliação negativa, tal qual considerar que uma pessoa mais velha é necessariamente menos capaz.
Por fim, a discriminação acontece quando esse julgamento se transforma em comportamento, tipo não contratar ninguém por causa da idade, ignorar sua opinião, impedir sua participação ou tratá-la como incapaz sem avaliar suas condições reais.
Existe ainda o chamado etarismo internalizado, quando a própria pessoa incorpora essas crenças. Após ouvir durante anos que envelhecer significa ficar fraco, dependente ou ultrapassado, ela pode começar a limitar suas próprias escolhas. É aí que o preconceito se torna especialmente perverso: não precisa mais vir apenas de fora. A própria pessoa pode passar a acreditar que não tem mais idade para aprender, trabalhar, praticar determinada atividade ou começar algo novo.
Combater o etarismo não significa romantizar o envelhecimento. O corpo muda, algumas capacidades podem diminuir e determinadas atividades podem se tornar mais difíceis. Mas essas mudanças acontecem de maneiras diferentes para cada pessoa.
Há quem precise de mais cuidados aos 60 anos e quem mantenha uma vida bastante ativa aos 80, 90 ou mais. Não existe um único modelo de velhice. Por isso, talvez uma das mudanças mais importantes seja deixar de enxergar a idade como uma espécie de prazo de validade.
Envelhecer não deveria significar desaparecer, perder voz ou deixar de fazer planos. Significa atravessar mais uma etapa da vida, com novas necessidades, possibilidades e desafios. Combater o etarismo interessa a todos, afinal, a velhice não é uma condição de um grupo distante, mas uma etapa para a qual a vida de todo mundo tende a se encaminhar.
Revisão técnica: Maysa Seabra Cendoroglo, médica geriatra no Einstein Hospital Israelita (CRM-SP) 48203; e Isadora Crosara, médica geriatra no Einstein em Goiânia (CRM-GO 9995)