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Lenacapavir: como o novo medicamento pode ajudar na prevenção do HIV

Atualizado em 15/01/2026
Tempo de leitura: 5 minutos

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Uma representação detalhada da estrutura viral, destacando as proteínas 'spike' na superfície do envelope viral.

O lenacapavir é considerado, atualmente, um dos medicamentos mais promissores no enfrentamento ao vírus da imunodeficiência humana (HIV), causador da síndrome da imunodeficiência adquirida (aids). Desenvolvido pela farmacêutica Gilead Sciences, sediada nos EUA, trata-se de um antirretroviral de classe única, com um mecanismo de ação inédito entre as terapias disponíveis, o que o posiciona como uma alternativa estratégica tanto para o tratamento de casos complexos quanto para a prevenção de novas infecções.

Diferentemente dos antirretrovirais tradicionais, que atuam bloqueando etapas específicas do ciclo viral – como a transcrição reversa ou a integração do material genético do vírus ao DNA da célula hospedeira –, o lenacapavir age diretamente sobre o capsídeo do HIV. Essa estrutura proteica envolve e protege o RNA viral e é essencial para a entrada, a replicação e a montagem do vírus dentro das células humanas.

Ao se ligar com alta afinidade às proteínas do capsídeo, o medicamento interfere em múltiplas fases do ciclo viral, dificultando a entrada do material genético no núcleo celular, reduzindo a produção de proteínas estruturais e induzindo a formação de partículas virais defeituosas. Esse efeito combinado contribui de forma decisiva para impedir a propagação da infecção no organismo e interromper o ciclo de transmissão.

Aprovação no Brasil

Antes de avançar nos processos regulatórios no Brasil, o lenacapavir já vinha sendo utilizado em outras partes do mundo. Nos Estados Unidos, foi aprovado em 2022 para o tratamento de pessoas vivendo com HIV com resistência a múltiplas classes de antirretrovirais, tornando-se uma alternativa terapêutica para casos considerados de difícil manejo. Em 2025, a autorização foi ampliada para o uso como profilaxia pré-exposição (PrEP), consolidando o fármaco como uma nova estratégia de prevenção ao HIV por via sexual.

Esse conjunto de evidências levou autoridades internacionais a reconhecerem o potencial do medicamento para ampliar o alcance das políticas de prevenção. A Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar o lenacapavir como opção adicional de PrEP. A indicação levou em consideração não apenas os altos índices de proteção observados, mas também o impacto positivo do regime de longa duração sobre a adesão dos usuários.

Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma nova indicação para o lenacapavir no Brasil, autorizando seu uso como PrEP para reduzir o risco de infecção pelo HIV por via sexual. O produto é destinado a adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 kg, e seu uso está condicionado à realização de teste com resultado negativo para HIV antes do início do tratamento.

Desafios no acesso

Apesar da aprovação regulatória, ainda não há previsão de incorporar o lenacapavir ao Sistema Único de Saúde (SUS). Um dos principais entraves é o custo: no mercado internacional, o preço anual do medicamento pode ultrapassar R$ 100 mil para uma pessoa aplicar duas injeções por ano.

Por isso, os próximos passos da entrada do produto no país envolvem não apenas a definição de protocolos clínicos e a avaliação de custo-efetividade, mas também um debate amplo sobre viabilidade econômica, equidade e acesso. Vale lembrar que, desde 2018, a PrEP é oferecida gratuitamente em diversos municípios brasileiros, por meio de antirretrovirais em dose fixa combinada (tenofovir/emtricitabina).

Como usar o lenacapavir

Um dos principais diferenciais do lenacapavir em relação às estratégias preventivas já existentes é o esquema de administração. O medicamento é disponibilizado em duas formas: comprimidos orais, utilizados na fase inicial do tratamento, e injeções subcutâneas de longa duração, aplicadas a cada seis meses por um profissional de saúde.

Após o esquema de início, o usuário passa a necessitar de apenas duas aplicações anuais para manter níveis adequados do medicamento no organismo. Essa característica reduz significativamente a dependência de rotinas diárias de medicação, consideradas um dos principais pontos de fragilidade da PrEP oral tradicional.

A menor frequência de doses tende a melhorar a adesão e minimizar períodos de vulnerabilidade, sobretudo entre populações que enfrentam barreiras sociais, estigma ou dificuldade de acesso contínuo aos serviços de saúde. Além disso, o regime semestral pode aliviar a carga sobre o sistema de saúde, ao diminuir o número de consultas necessárias apenas para renovação de prescrição.

Efeitos colaterais

Os dados disponíveis até o momento indicam que o lenacapavir apresenta um perfil de segurança considerado favorável. A maioria dos efeitos adversos relatados são leves a moderados e transitórios, estando predominantemente associados ao local da aplicação da injeção subcutânea. Os mais comuns incluem:

  • Dor;
  • Inchaço;
  • Vermelhidão;
  • Endurecimento da pele;
  • Coceira;
  • Formação de nódulos subcutâneos;
  • Dor de cabeça;
  • Náusea.

Em situações raras, podem ocorrer reações mais graves no local da aplicação, especialmente quando a técnica de administração não é adequada, levando a lesões cutâneas mais graves. Por isso, o acompanhamento médico regular é considerado parte essencial do uso seguro do medicamento.

Contraindicações

O uso do lenacapavir como PrEP exige atenção rigorosa ao diagnóstico precoce. O medicamento não deve ser utilizado por pessoas com infecção pelo HIV não diagnosticada ou com status sorológico desconhecido, uma vez que isso pode favorecer o surgimento de resistência viral. É justamente por esse motivo que a realização de testes para HIV antes do início e durante o acompanhamento do tratamento é obrigatória.

Outro ponto central é que o lenacapavir não oferece proteção contra outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Assim, seu uso deve estar integrado a outras medidas da chamada prevenção combinada, como o uso de preservativos, a testagem regular e o acesso à profilaxia pós-exposição (PEP), quando indicada.

Gestantes, lactantes e pessoas em uso de outros remédios devem ser avaliadas individualmente, já que há potenciais interações medicamentosas e transferência do fármaco para o leite materno. O acompanhamento clínico contínuo é fundamental para garantir segurança e eficácia ao longo do tempo.

Revisão técnica: Alexandre R. Marra, pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE).

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