Com o aumento da expectativa de vida, especialmente entre as mulheres, cresce também a atenção a um processo natural, mas muitas vezes cercado de dúvidas: a menopausa. Esse momento marca o fim da menstruação e vem acompanhado de mudanças hormonais significativas. Nesse contexto, a reposição hormonal surge como alternativa para aliviar sintomas e preservar a qualidade de vida.
Podcast “O que te trouxe aqui?” | Temporada 3, Episódio 4
No climatério, o principal hormônio afetado é o estrogênio, cuja produção pelo organismo cai drasticamente. Ele tem papel central em diversas funções, que vão desde o controle da temperatura corporal ao equilíbrio emocional.
Com a queda, podem surgir sintomas como ondas de calor (os chamados “fogachos”), insônia, irritabilidade, ressecamento vaginal, diminuição da libido e alterações no metabolismo. Nesse sentido, a terapia busca compensar essa redução, amenizando tais efeitos.
Quem pode se beneficiar
A principal indicação da reposição hormonal é para mulheres que apresentam sintomas incômodos durante o climatério, a fase de transição que pode começar anos antes da menopausa, e após a menopausa.
Um exemplo são aquelas que passam a sentir calor intenso várias vezes ao dia, prejudicando o sono e a rotina. Nesses casos, o tratamento pode trazer alívio significativo. Há também relatos de melhora no humor, na disposição e na vida sexual.
Além dos sintomas mais conhecidos, a terapia pode contribuir para:
- Preservação da massa muscular;
- Redução do acúmulo de gordura abdominal;
- Melhora da qualidade do sono;
- Proteção óssea, diminuindo o risco de osteoporose;
- Impacto positivo na saúde cardiovascular, quando bem indicada.
Os benefícios são mais evidentes quando o tratamento é iniciado dentro da chamada “janela de oportunidade”. Esse período geralmente ocorre até 10 anos após a menopausa ou antes dos 60 anos de idade.
Não é recomendado a todas as mulheres
Apesar dos benefícios, a reposição hormonal não é indicada para todos os casos. Existem contraindicações importantes, como:
- Histórico de câncer de mama ou de endométrio;
- Doenças hepáticas graves;
- Problemas cardíacos ou episódios prévios de trombose ou AVC;
- Sangramentos uterinos sem causa definida;
Nesses casos, o médico pode sugerir alternativas não hormonais para controlar os sintomas.
Como é feito o tratamento
O tratamento de reposição hormonal é, antes de tudo, um processo clínico individualizado. Isso significa que não existe um modelo único aplicável a todas as mulheres. A definição da terapia leva em conta fatores como idade, tempo desde a menopausa, intensidade dos sintomas, presença de doenças associadas e até o estilo de vida.
A via de administração, seja por comprimidos, adesivos transdérmicos, géis ou cremes, é escolhida para otimizar a absorção do hormônio e reduzir riscos. Por exemplo, mulheres com maior risco cardiovascular podem se beneficiar de vias transdérmicas, que evitam a passagem inicial pelo fígado.
Outro ponto central é o controle rigoroso de dose e acompanhamento contínuo. A prática atual prioriza o uso da menor dose eficaz para aliviar os sintomas, reduzindo a exposição desnecessária aos hormônios. Diferentemente de abordagens antigas, que padronizavam tratamentos, hoje há um refinamento maior tanto na escolha das substâncias quanto na forma de administração.
O acompanhamento periódico permite ajustes tanto para melhorar sintomas persistentes quanto para monitorar possíveis efeitos adversos. Também é nesse processo que se decide a continuidade ou suspensão da terapia, já que ainda não há consenso absoluto sobre por quanto tempo a reposição deve ser mantida, sendo comum a reavaliação regular caso a caso.
Cercada de mitos
Durante muitos anos, a reposição hormonal foi cercada de receios, especialmente após estudos que sugeriam aumento de risco para doenças como câncer de mama. Hoje, a ciência mostra que, quando bem indicada e acompanhada, os benefícios tendem a superar os riscos para a maioria das mulheres.
Ainda assim, o tratamento não é isento de efeitos colaterais e exige acompanhamento médico regular, sobretudo quando o uso é inadequado. Há práticas sem respaldo científico, como implantes hormonais manipulados e combinações excessivas de substâncias, muitas vezes vendidas com promessas estéticas ou de desempenho físico. Esses métodos podem trazer riscos sérios à saúde.
Por isso, entender o próprio corpo, conhecer as opções de tratamento e buscar profissionais qualificados são passos fundamentais. A decisão de iniciar a reposição hormonal deve ser compartilhada entre paciente e médico, considerando riscos, benefícios e expectativas.
Revisão técnica: Carolina Fernandes, ginecologista com especialização em ginecologia endócrina, do Einstein Hospital Israelita (CRM 176268 / RQE 89980)
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