O sistema reprodutor masculino engloba um conjunto de órgãos que integra uma estrutura complexa e altamente especializada. De forma articulada, esses órgãos desempenham uma função central: garantir a produção, a maturação, o armazenamento, o transporte, a nutrição e a proteção dos espermatozoides, permitindo que cheguem ao óvulo em condições adequadas para penetrá-lo, fertilizá-lo e dar origem a um embrião viável.
Esse sistema também é responsável pela produção de testosterona, hormônio responsável não apenas pelas características masculinas, mas também indispensável ao próprio processo de formação dos espermatozoides.
Rota complexa
Não são apenas pênis e testículos que integram o sistema reprodutor masculino. O cérebro também, por meio do chamado eixo hipotálamo-hipófise-testículo. O hipotálamo é uma glândula situada no meio do cérebro, escondida, mas que faz uma estreita conexão com a hipófise pelo sistema de rede capilar denominado sistema porta-hipofisário.
O hipotálamo estimula a liberação dos hormônios FSH e LH (chamados de gonadotrofinas) pela hipófise. Esses hormônios atuam diretamente no testículo, respectivamente nas células de Sertoli, responsáveis pela fabricação de espermatozoides, e nas células de Leydig, que ficam a cargo da produção de testosterona.
Assim que os espermatozoides são produzidos pelo testículo, eles passam para o epidídimo, uma pequena estrutura de túbulo único e enovelado que fica sobre o testículo e serve como reservatório temporário, gerando a maturação e a motilidade dos espermatozoides enquanto aguardam para serem ejaculados.
Esse túbulo único desemboca no ducto deferente, que transporta os espermatozoides por movimentações peristálticas em direção à vesícula seminal. A vesícula seminal é uma glândula situada atrás da bexiga, responsável pela secreção de um fluido rico em frutose, prostaglandinas e proteínas coagulantes e que compõe cerca de 60% do volume do sêmen. Esse fluido fornece energia aos espermatozoides e contribui para sua vitalidade quando estiverem dentro do trato genital feminino.
Antes de serem depositados na uretra e ejaculados, os espermatozoides passam pela próstata, glândula única que envolve a uretra logo abaixo da bexiga. Sua secreção é alcalina e contém enzimas (como a fosfatase ácida e o PSA) que ajudam na liquefação do coágulo seminal, favorecendo a liberação dos espermatozoides após a ejaculação.
Por fim, as glândulas bulbouretrais (de Cowper), que estão situadas abaixo da próstata, liberam um muco lubrificante e alcalino antes da ejaculação, com a função de neutralizar a acidez residual da uretra e facilitar a passagem do sêmen. Todas as glândulas juntas (vesícula seminal, próstata e bulbouretrais) conferem aos espermatozoides propriedades únicas que os mantêm vivos e funcionais até, possivelmente, encontrarem o óvulo a ser fertilizado.
Condições que podem afetar a função testicular
Para entender melhor as situações que prejudicam a produção de espermatozoides e de testosterona pelo testículo, é possível fazer uma analogia com uma máquina que precisa de eletricidade para funcionar.
Como qualquer equipamento sujeito a não desempenhar suas atividades de forma adequada caso existam problemas para seu funcionamento, o testículo pode não produzir espermatozoides e testosterona da forma esperada devido a algumas situações.
Uma delas é a ausência de estímulo do hipotálamo para a secreção das gonadotrofinas ou alguma alteração que atinja diretamente a hipófise, como tumor, cirurgia na glândula ou doenças infiltrativas como a tuberculose, prejudicando totalmente a liberação do FSH e LH, deixando o testículo sem energia para a produção de espermatozoides e testosterona.
Em outros casos, mesmo com todo o estímulo hormonal suficiente para funcionar, o testículo não produz espermatozoides ou até mesmo testosterona de forma eficiente. Alterações genéticas, como a síndrome de Klinefelter e a microdeleção de cromossomo Y, são causas importantes de azoospermia (ausência de espermatozoides), assim como tratamentos como radioterapia e quimioterapia.
Há ainda um terceiro cenário possível. A produção de espermatozoides e testosterona se inicia com o aparecimento da puberdade, com o início da secreção dos hormônios gonadotrofinas (FSH e LH). Entretanto, existem situações que podem prejudicar a função testicular, como doenças, estilo de vida e contaminação pelo meio ambiente.
O aparecimento da doença varicocele (principal causa tratável de infertilidade masculina), tabagismo, uso de álcool, drogas, sedentarismo, obesidade, uso de anabolizantes e testosterona exógena são algumas das causas que geram prejuízo à função testicular. Essas condições de certa forma podem ser detectadas ou prevenidas de forma precoce, evitando a infertilidade no futuro.
Como cuidar da saúde do sistema reprodutor?
O que pode ser feito para ter uma boa e duradoura produção de espermatozoides e de testosterona? Os cuidados devem começar, na realidade, ainda durante a gravidez: o ideal é que a mãe evite fatores que prejudicam a formação das células que compõem o testículo e serão fundamentais para a produção de espermatozoides. Entre eles, estão:
- Cremes para prevenção de estrias que contenham disruptores endócrinos;
- Alimentos com agrotóxicos e pesticidas;
- Ganho de peso excessivo, para controlar a produção do hormônio estradiol;
- Cigarro e de álcool, altamente tóxicos para as células testiculares e toda a saúde fetal;
- Sedentarismo;
- Não se vacinar.
Após o nascimento, o testículo do bebê permanece silenciado e em segurança por muitos anos, exatamente até o início da puberdade, em que a secreção de FSH e LH aparece. Nessa fase, a produção testicular de testosterona se inicia e as células de Sertoli são estimuladas a produzir os primeiros espermatozoides.
Ao começar a produzir espermatozoides, o testículo fica novamente suscetível a diversos fatores de agravo nesta época da vida, como:
- Aparecimento da varicocele;
- Sedentarismo;
- Obesidade;
- Uso de drogas, incluindo cigarro e álcool;
- Ausência de vacinas (proteção contra vírus que geram inflamação do testículo, como a caxumba);
- infecção sexualmente transmissível pelo não uso de preservativo;
- Uso de anabolizantes esteroides ou a própria testosterona exógena, cortando por completo a produção dos hormônios FSH e LH, estimuladores da espermatogênese.
Importância dos check-ups de rotina
A consulta médica regular na adolescência — seja com urologista, clínico geral, hebiatra ou médico de família — desempenha papel fundamental na promoção da saúde e na prevenção de doenças. Esse acompanhamento permite a detecção precoce de condições que podem comprometer a produção de espermatozoides, como a varicocele.
Além do acompanhamento médico, adotar um estilo de vida saudável é determinante para preservar o potencial reprodutivo no futuro. A prática regular de atividade física moderada, uma alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados, a redução do consumo de ultraprocessados, bem como evitar tabagismo e o consumo de álcool e outras drogas, são medidas essenciais para a saúde testicular e reprodutiva ao longo da vida.
Revisão técnica: Daniel Suslik Zylbersztejn, médico urologista especializado em reprodução humana no Einstein Hospital Israelita (CRM 131531 / RQE 34922)




