A ideia de que a esfoliação é uma etapa essencial do “skincare” ainda é amplamente difundida. Muitos acreditam que “renovar” a pele por meio de atrito, com buchas, cremes abrasivos ou misturas caseiras, ajuda a deixá-la mais lisa e saudável. Mas a verdade é que esse hábito não traz benefícios reais e pode ser prejudicial, mesmo para quem não apresenta doenças.
A superfície da pele é recoberta por uma barreira invisível formada por água, lipídios, ceramidas, ácidos graxos e proteínas estruturais. Essa camada funciona como um verdadeiro “muro de proteção”, conhecido como barreira cutânea, que impede a perda de água, bloqueia a entrada de agentes externos e preserva o equilíbrio interno do corpo.
Quando essa barreira é rompida por esfoliantes, buchas ou sabonetes muito alcalinos, ocorre um desequilíbrio que compromete múltiplas funções fisiológicas. A pele perde sua capacidade de retenção de água, causando desidratação e aspereza, além de remover todas as “bactérias do bem”, fundamentais na prevenção de infecções.
Essas alterações são cumulativas: quanto mais frequente o atrito ou o uso de produtos abrasivos, maior o dano à barreira cutânea. Mesmo que a pele aparente estar “macia” logo após a esfoliação, essa sensação é passageira pois, logo depois, já há remoção de parte da camada protetora, e não uma renovação saudável.
Consequências do uso de buchas e agentes esfoliantes
A prática da esfoliação, especialmente quando feita com força ou com substâncias inadequadas (como café, açúcar e sal), pode causar microlesões invisíveis na superfície da pele. Essas pequenas fissuras alteram o microbioma cutâneo, conjunto de microrganismos benéficos que vivem na pele e ajudam a protegê-la.
Com a destruição dessa barreira, o corpo passa a perder água de forma acelerada, processo conhecido como perda transepidérmica de água. O resultado é uma pele que se torna seca, sensível e mais propensa a:
- Coceiras e ardor;
- Irritações e agravamento dermatite;
- Inflamações de folículos (foliculite);
- Infecções bacterianas e fúngica;
- Piora de doenças como dermatite atópica, psoríase e rosácea.
Além disso, banhos muito quentes e demorados também removem esse manto de água e de gordura e, se associados à esfoliação, agravam mais o quadro.
Peles saudáveis também são afetadas
Mesmo quem não tem doenças de pele deve evitar a esfoliação. A remoção da camada de gordura e água da epiderme interfere nas trocas fisiológicas com o ambiente, rompendo o equilíbrio natural que mantém a pele íntegra e hidratada.
Esse processo é comparável a danificar a superfície de um muro: cada esfoliação retira uma parte dos componentes que garantem sua resistência. Com o tempo, a pele perde brilho, elasticidade e capacidade de se defender, que é o oposto do que se busca ao cuidar do corpo.
O que fazer no lugar da esfoliação
Em vez de recorrer a agentes abrasivos, o foco do cuidado deve ser restaurar e preservar a barreira cutânea. A pele tem capacidade natural de renovação: as células mortas da camada mais externa são substituídas de forma contínua pelo próprio organismo, sem necessidade de intervenção mecânica.
Para manter esse processo equilibrado e garantir uma pele saudável, recomenda-se adotar hábitos simples no dia a dia:
- Prefira banhos curtos e com água morna, para evitar a remoção excessiva da camada lipídica;
- Use sabonetes suaves, com pH fisiológico (5,5) e compostos hidratantes, como glicerina ou aveia coloidal;
- Aplique hidratante logo após o banho, quando a pele ainda estiver levemente úmida. Isso ajuda a selar a água e reforçar a barreira natural;
- Evite buchas, esponjas e panos ásperos, que criam atrito desnecessário. A limpeza deve ser feita com as mãos e movimentos delicados;
- Use protetor solar diariamente, inclusive em dias nublados, para evitar danos causados pela radiação ultravioleta.
Essas medidas são suficientes para manter a pele limpa, macia e protegida. Em casos de dermatoses, o cuidado deve priorizar a reparação da barreira cutânea com produtos específicos, indicados por dermatologista, como hidratantes com ceramidas, ácidos graxos e agentes calmantes, que ajudam a restabelecer o equilíbrio e reduzir a inflamação.
Revisão técnica: Selma Helene, dermatologista do Einstein Hospital Israelita (CRM 56736)




