A flibanserina pertence ao grupo dos medicamentos moduladores do sistema serotoninérgico, que atuam alterando a concentração de neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina no cérebro. Essa modulação promove a reorganização de circuitos neurais relacionados ao desejo sexual, o que pode resultar no aumento da libido — motivo pelo qual o fármaco passou a ser popularmente apelidado de “viagra feminino”.
No entanto, a flibanserina difere de forma significativa do citrato de sildenafila, comercializado com o nome Viagra. Enquanto a flibanserina age no sistema nervoso central, a sildenafila atua predominantemente no sistema vascular periférico, promovendo o aumento do fluxo sanguíneo para os órgãos genitais e facilitando a resposta física à estimulação sexual.
Na prática, isso significa que o efeito da flibanserina não é imediato nem mecânico. O fármaco busca influenciar, de forma gradual, os processos cerebrais envolvidos no desejo sexual, sem provocar, necessariamente, excitação ou resposta sexual automática após a ingestão.
Sua principal indicação clínica é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), uma condição caracterizada pela redução persistente da libido, associada a sofrimento emocional e impacto na qualidade de vida. O quadro pode envolver tanto diminuição da excitação subjetiva quanto redução da resposta genital à estimulação sexual.
Situação regulatória no Brasil
A flibanserina não tem registro ou regulação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que impede sua indicação e comercialização no país. O medicamento, entretanto, é aprovado em outros países, como os Estados Unidos, onde é comercializado sob o nome Addyi.
Aprovada em 2015 pela Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento de mulheres na pré-menopausa com TDSH, em dezembro de 2025 a FDA expandiu a indicação para incluir também mulheres na pós-menopausa com menos de 65 anos. Essa ampliação foi baseada em estudos clínicos que demonstraram melhora modesta no desejo sexual e no número de eventos sexuais satisfatórios.
Nos Estados Unidos, a dose recomendada é de 100 mg por via oral, administrada à noite. A orientação para o uso noturno está relacionada ao risco de sonolência e hipotensão, efeitos que podem ser agravados quando o medicamento é ingerido durante o dia.
Efeitos colaterais
A flibanserina pode causar efeitos adversos de intensidade variável. Entre os mais frequentes, destacam-se:
- Tontura;
- Sonolência;
- Cansaço;
- Náusea;
- Boca seca;
- Constipação;
- Insônia.
Esses sintomas tendem a ser mais comuns no início do tratamento. Mais raramente, podem ocorrer reações graves, que exigem avaliação médica imediata:
- Sonolência excessiva;
- Sensação de desmaio;
- Queda acentuada da pressão arterial;
- Sinais de reação alérgica (urticária, dificuldade respiratória, inchaço de face, lábios ou garganta).
Contraindicações e cuidados
Nos locais em que seu uso é liberado, a flibanserina é contraindicada em pacientes com doença hepática, consumo recente de álcool, alergia ao princípio ativo ou a qualquer componente da fórmula. O medicamento também não deve ser utilizado durante a gravidez ou a amamentação, devido à ausência de dados conclusivos sobre sua segurança nessas situações.
Além disso, a flibanserina apresenta interações relevantes com diversos medicamentos, incluindo antibióticos, antifúngicos, antivirais, fármacos cardiovasculares, antidepressivos e fitoterápicos. Por essa razão, é fundamental que a paciente informe ao médico todos os medicamentos e suplementos em uso antes de iniciar o tratamento, permitindo uma avaliação adequada dos riscos e benefícios.
Revisão Técnica: João Roberto Resende Fernandes (CRM-SP 203006/RQE 91325), especialista em Clínica Médica e médico do pronto-atendimento e corpo clínico do Einstein Hospital Israelita.




